Um símbolo de esperança

Sexta-feira, 2 de Junho de 1978

Ontem deixei o homem da montanha no alto do seu mundo, sozinho entre a loucura e as recordações. Hoje voltei a ele, mas já não o vi da mesma maneira.

Se ontem era o louco que se afastara dos homens, hoje tornou-se para mim alguém que podia ensinar alguma coisa. Talvez porque, apesar de tudo, ainda acreditasse que fosse possível encontrar uma saída para aquilo que me incomodava no mundo.

Escrevi:

Louvado o teu bom senso
Ó homem da montanha
Louvado sejas
Nada fizeste, chegaste e partiste
No entanto conjugas os nossos actos
Sábios são as tuas palavras e ensinamentos
Diz e seguir-te-ei, serei teu servo
Faz com que termine o ódio
Que circula nos corações das gentes
Se necessário, torna-os mansos
Num mundo de feras
Para que compreendam a razão de viver
Faz com que o Sol, a Lua e o céu estrelado
Não sejam mais astros
E sim símbolos de liberdade
Julga e liberta todos
Quantos quiseram possuir a loucura como fuga
Do meio selvagem de betão e cimento armado
Destrói sem deixar vestígios
Desta selva imensa
E corrupta que desmoralizou os homens

O homem da montanha já não era apenas alguém que vivia afastado da sociedade. Começava a representar aquilo que eu gostaria que existisse no mundo: alguém capaz de parar o ódio, de ensinar, de libertar.

Talvez seja por isso que hoje o tenha tratado quase como um mestre. Eu queria acreditar que ainda havia uma forma de sair daquilo que via à minha volta. E, por enquanto, essa saída estava naquele homem que eu próprio tinha criado no alto da montanha.



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