O dia zero

Tudo começou numa manhã de Março, ainda em plena Primavera.

Estava de férias do liceu, estendido no sofá da sala, sentindo o tecido fresco sob a pele, ouvindo o tilintar dos pratos e o murmúrio da minha mãe ocupada nos afazeres domésticos. As minhas irmãs vagueavam pelo seu próprio mundo, passos leves sobre o soalho, e o meu pai já tinha saído cedo, como sempre. O silêncio que ficou era suave e acolhedor, perfumado pelo aroma do pão fresco e pelo doce cheiro das flores que a minha mãe cuidava no quintal.

Levantei-me e percorri a nossa pequena casa de rés-do-chão. Cada espaço guardava memórias invisíveis: o frio do soalho de manhã, a madeira quente das portas, o eco da minha voz pelos corredores. Ao fundo do quintal, o capoeiro exalava o cheiro terroso das galinhas e coelhos, e o lago para os patos refletia a luz do sol como um espelho dourado. As árvores de fruto davam sombra e perfume, e o ar era fresco, misturado com húmus, seiva e flores.

Entretive-me a separar pedras multicoloridas de uma escova de roupa. O toque áspero das pedras, a fricção nos dedos, o brilho que refletia a luz, fazia-me perder a noção do tempo.

Ainda me lembro da chegada do Manel, correndo pelo caminho de terra, o cheiro da relva molhada misturado com o seu perfume juvenil:

O que vais fazer com essas pedras todas? — perguntou, curioso.

Ainda não pensei muito… quero fazer um bastão com uma cana, colando as pedras como num filme egípcio que vi na televisão — respondi, sentindo a madeira da escova e o frio do metal nas mãos.

Tenho de fazer um recado à minha mãe… queres vir comigo? No Alto do Depósito há um caniçal, e podes cortar quantas canas quiseres — disse ele.

Aceitei sem hesitar. Quando partimos senti o vento de Primavera bater no rosto, trazendo o cheiro da terra molhada e das folhas húmidas da chuvada do dia anterior.

Pelo caminho, falávamos de tudo e de nada, passos a ranger na terra, sol aquecendo a pele, cheiro de terra revirada de uma horta misturado com a relva recém-cortada num jardim. Eu, livre para vaguear; ele, limitado pelos muros da sua casa, aproveitando cada saída como uma aventura proibida.

Chegamos ao Alto do Depósito. A vista era imponente: o depósito de água refletia o céu azul, o Alto do Gódio erguia-se negro com escórias de carvão, o Poço de S. Vicente destacava-se com a sua torre imponente, e os lameiros atrás exalavam cheiro húmido das lamas negras. Ao longe, a Serra da Pia estendia-se silenciosa, guardando segredos do mundo.

Descemos por um caminho de terra, o aroma das folhas e da relva, até ao caniçal. Nunca ali estivera, e senti o frio da manhã ceder ao calor que subia do solo, misturado com a excitação na espinha. Mais abaixo, chegamos à moradia amarela que era o destino do Manel. Ele desapareceu pelo portão seguindo para as traseiras, e eu fiquei a descascar as canas, sentindo a textura rugosa e fibrosa nos dedos, até ouvir vozes, a do Manel e uma outra feminina juvenil, que me fizeram virar a cabeça para observar quem vinha.

Ainda me recordo da primeira vez que vi a Dila. O perfume da primavera parecia envolvê-la, os cabelos escuros balançando ao vento, os olhos azuis reflectindo o céu. O timbre da sua voz era suave, quase musical, e fiquei sem palavras. O Manel aproximou-se e, vendo-me imóvel, disse:

Então, o que tens?

Quem… quem é ela? — perguntei, sem fôlego.

É a Dila — respondeu ele.

Ela é linda… — murmurei, e ele riu-se, sem perceber a turbulência que me agitava. Nem eu compreendia, apenas sentia.

Voltei para casa flutuando, cada passo sobre o empedrado parecia leve, o cheiro do quintal ainda pairava no ar. Algo me tocara profundamente, algo que eu ainda não sabia nomear.

Em casa, deixei as canas de lado e recebi um raspanete da minha mãe pelo almoço esquecido. Sentei-me no sofá, tecido frio sob os dedos, e tentei ver televisão, mas tudo parecia sem cor. Dila. Apenas o nome rodava na mente, acompanhado da lembrança daqueles olhos e do sorriso que nem o Manel conseguia interpretar.

Horas passaram em semi-consciência. A voz da minha mãe chamou-me:

Tono… Tono…

Não sou surdo… — murmurei, meio ensonado.

Salvo pelo Manel, que entrou apressado, ouvi-o dizer:

Sabes onde fui?

Fui à casa da Dila! — disse rapidamente sem me deixar responder, e senti um frio doce percorrer-me a espinha sem perceber muito bem porquê.

A conversa com ele prolongou-se, cada pausa carregada de malícia:

Então, não dizes nada?

Não… — murmurei, incapaz de controlar a aparente indiferença.

Sim… então, o que foste lá fazer? Podias ter-me dito que eu ia contigo!

Fui com o meu pai — disse ele, sorrindo. — Por isso não vim ter contigo.

Ficaste de beicinho pela Dila, não é verdade? — continuou, e eu senti-me ruborizar.

O que queres dizer com isso? — perguntei, ansioso.

Alguém quis saber quem eras, onde moravas… e o teu nome.

Quem?… A Dila? — perguntei, incrédulo.

Claro! Quem mais? — disse ele, rindo.

Tens a certeza? — perguntei.

Mau! Duvidas de mim? Então esquece — disse ele, fingindo zangar-se.

Não, não! Eu acredito… custa-me acreditar que “ela” reparou em mim. Disse mais alguma coisa?

Perguntou onde estudavas. Quando lhe disse que andavas no Alexandre Herculano, corou…

Porquê? — perguntei, interrompendo.

Porque ela anda no Rainha Santa Isabel, no liceu ao lado do nosso.

A sério? E tem aulas de manhã ou de tarde?

Mau… Agora perguntas as mesmas coisas? — disse ele, rindo.

Porquê? Ela também perguntou se eu tinha aulas de manhã ou de tarde? E o que respondeste?

Que tínhamos aulas de manhã…e ela disse que também tinha. 

Disse a que horas ia e em que paragem entrava? — perguntei. — Não disse, nessa altura o meu pai chamou-me e viemos embora.

Quando voltas lá? — perguntei, excitado.

Não achas que são muitas perguntas? O amor anda no ar… — disse ele cantarolando ironicamente.

Oh… — respondi, afastando-me, corando até à raiz do cabelo.

Tenho de ir embora, a minha mãe não sabe que vim aqui. Até amanhã — disse ele, partindo a correr.

A tarde passou num limbo de semi-consciência. Eu estava nas nuvens. Amor? Será isto que senti?

Depois do jantar, deitei-me sem ver televisão. O sono custou a vir, mas antes de adormecer senti a alvorada espreitar pelos interstícios da persiana, embalando-me em sonhos de fantasia.

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Hoje sei que aquele dia foi decisivo. A leveza daquela manhã de Março e o primeiro encontro com a Dila ficaram gravados em mim de forma indelével. Foi nesse instante que o mundo começou a parecer maior e mais complexo, mas também mais belo e cheio de possibilidades. Só mais tarde percebi que estava a dar os primeiros passos para descobrir o que significa sentir, desejar, esperar. E, olhando para o passado, vejo que cada momento que se seguiu se construiu a partir desse instante, dessa pequena aventura, desses olhares e palavras que guardo com carinho. Todo o que se avizinha nos dias subsequentes deve-se, de algum modo, a esse primeiro dia que me tocou tão profundamente.