A Clareira e os Segredos do Riso

Segunda-feira, 31 de Março de 1975

O dia começou com a leveza de quem quer esquecer o peso do anterior. Havia sol, havia promessas no ar – ou talvez fosse só o desejo teimoso de que algo, qualquer coisa, corresse bem.

Saí de casa por volta das duas e meia, talvez três. Ia com o Manel e o Benjamim, este ia na sua motorizada, que mais parecia um cavalo manco; eu e o Manel de bicicleta, companheiros de pedal e de conversa. Partimos em direcção à clareira que nos servia de refúgio e palco. A motorizada, como já era tradição, deu trabalho. Engasgava-se, tossia, fazia birra. Mas nada que um empurrão e uma piada mal contada não resolvessem.

— Esta mota qualquer dia ganha consciência e recusa-se a sair de casa! — resmungou o dono, enquanto lhe dava um safanão no guiador.

— Se isso acontecer, propomos-lhe que vá ao psicólogo. — respondi eu, rindo, já com o suor a escorrer-me da testa.

Passamos em frente à casa da Odília. Não a vimos. Nenhum de nós disse nada, mas, no silêncio, havia expectativa. Continuamos até à clareira do costume. Ao chegar, desmontamos e atiramo-nos para a erva como se ela nos pudesse devolver a juventude que ainda nem tínhamos perdido.

Ficamos ali um tempo, a conversar de tudo e de nada, até que me levantei com a vontade súbita de pedalar.

— Vou dar uma volta. Quem vem? — perguntei.

O Benjamim encolheu os ombros e levantou-se.

— Vamos lá, disse ele pegando na bicicleta do Manel que preferiu manter a sua posição de deitado.

Seguimos por um trilho conhecido, e foi então que a vi. Ao longe, uma silhueta que me era familiar. Abrandei.

— Espera… é ela? — sussurrei, quase para mim mesmo.

Olhei melhor. Era. Era mesmo a Odília. Ela também nos viu. Tentou disfarçar, como quem passa entre sombras. Mas era tarde — o destino já tinha decidido pregar-nos uma peça.

Afastei-me para ir avisar o Benjamim que tinha ficado para trás. Ele veio rapidamente ter comigo. E foi aí que a surpresa nos abriu os olhos como uma luz ao cair da tarde: ela estava a falar com o Manel.

— Estás a ver aquilo? — perguntei, ainda meio incrédulo.

— Vejo. E ouço. E estou a gostar! — respondeu o meu colega, divertido.

Aproximamo-nos. Juntamo-nos à conversa. Não havia pressas, nem assuntos urgentes — apenas palavras soltas, anedotas que faziam rir, trocas de olhares que diziam mais do que os lábios. Ela estava diferente. Solta. Verdadeira. O seu riso era limpo, sem artifícios. E, de repente, comecei a perguntar-me: será que gosta de algum de nós? De quem?

Decidimos fazer uma pausa para lanchar. Quando passei por ela, não resisti:

— Vais esperar por nós?

Ela sorriu e respondeu:

— Claro. Espero, sim.

Senti um calor estranho no peito. A simplicidade daquela resposta soube-me a promessa. Corri para casa, lanchei, e mal terminei, o Benjamim já estava à porta — a pé, desta vez.

Fomos ter com o Manel. Ele ainda não tinha lanchado, por isso decidimos ir andando. Combinamos que ele depois nos apanhava.

Chegamos à clareira. E lá estava ela. À nossa espera. Sorridente. Sentamo-nos. A conversa recomeçou como se nunca tivesse parado. Daí a pouco apareceu a irmã dela, com um ar curioso, e mais tarde o Manel finalmente juntou-se ao grupo. Ficamos ali até pelo menos às oito. Entre risos, silêncios e olhares fugidios, o tempo escapou-se.

Quando perceberam que já era tarde, as duas irmãs despediram-se com leveza. Nós retribuímos o gesto, com um certo arrastar de palavras, como quem não queria que o momento acabasse. Depois, cada um seguiu o seu caminho. Eu fui para casa.

Mal entrei, uma cena familiar desabou sobre mim como uma trovoada maldita. Palavras duras, olhares pesados trocados entre os meus pais. O dia, que tinha começado com tanta esperança, fechou-se com uma sombra.

Hoje percebi que a vida raramente é inteira. Dá-nos pedaços de luz e, logo a seguir, mergulha-nos em sombras. Mas talvez seja assim que se reconhecem os momentos preciosos — porque não duram. O riso da Odília ficou-me no ouvido. Não era um riso qualquer, era o dela. E naquele riso cabia um mundo que eu queria explorar.

No fundo, talvez não tenha sido um mau dia. Foi só… verdadeiro.