Talvez Amanhã

Domingo, 30 de Março de 1975

A manhã trouxe-me um céu baço, sem cor. Acordei tarde, sem vontade de me levantar, e o silêncio dentro de casa tornava tudo ainda mais parado. O dia arrastou-se devagar, sem pressa, como se o tempo tivesse ficado preso num nevoeiro espesso.

Há dias assim—dias em que parece que o mundo se esqueceu de nós.

Passei a manhã e a tarde em casa, sozinho, mergulhado num silêncio que parecia amplificar os meus pensamentos. Passei algum tempo a folhear um livro, mas as palavras não me prendiam. A rádio tocava baixinho, mas a música não me dizia nada. Nem sequer o pensamento em Dila conseguiu distrair-me.

A solidão, que às vezes é uma companhia tranquila, hoje sentiu-se mais pesada. A solidão tem formas estranhas de se fazer sentir. Às vezes, está na ausência de pessoas à nossa volta. Outras vezes, está no meio da multidão, disfarçada no ruído, em olhares que passam por nós sem nos ver. Hoje, senti essa solidão de maneira diferente. Não era apenas a falta de companhia, era um vazio mais fundo, uma inquietação que não sabia explicar.

Desde o episódio com a Dila, tenho-me sentido mais introspectivo, como se uma parte de mim estivesse à espera de uma resposta que não sei bem como encontrar. A casa estava vazia, os meus pais saíram cedo, e eu fiquei a vaguear de um lado para o outro, sem grande propósito. A chuva de ontem tinha dado lugar a um céu cinzento e estático, que parecia reflectir o meu estado de espírito.

Foi só ao fim da tarde que algo mudou. O Benjamim apareceu e perguntou-me se queria ir ver uma corrida de motocross. Pareceu-me uma boa ideia, uma forma de quebrar a monotonia.

Achei que era uma boa ideia. Precisava de sair, de me distrair, de sentir algo diferente daquela monotonia que me envolvia.

— Vamos, sim — respondi, animado com a possibilidade de fazer algo diferente.

Saímos apressados, mas quando chegámos ao local, o evento já tinha terminado. As marcas dos pneus ainda estavam vincadas na terra, o cheiro a gasolina pairava no ar, mas a excitação do momento já se tinha dissipado.

— Chegámos tarde — disse o meu colega, pontapeando uma pedra com desânimo.

— Pois…

Olhámos um para o outro, sem saber bem o que fazer. Durante uns minutos ficámos por ali, como se esperássemos que algo acontecesse. Mas não aconteceu nada. Acabámos por voltar para casa, sem dizer grande coisa um ao outro.

O jantar passou sem história, e eu sentia que precisava de fazer algo para salvar o dia. Foi então que decidi ir ao cinema. Um filme cómico pareceu-me a melhor escolha — quem sabe, talvez conseguisse rir e esquecer esta sensação de vazio.

O cinema estava quase vazio, o que de certa forma me agradou. Sentei-me no meio da sala, envolto na escuridão, e deixei-me levar pela história. As gargalhadas dos poucos espectadores ecoavam pelo espaço, e, por momentos, consegui esquecer-me de tudo. Era estranho como uma simples história, projectada num ecrã, podia tirar-me por instantes deste marasmo.

No entanto, quando as luzes se acenderam e o filme terminou, a solidão voltou a pairar sobre mim. Caminhei para casa, reflectindo sobre o dia e sobre como, por vezes, a monotonia pode ser um espelho das nossas emoções mais profundas.

A solidão não é apenas a ausência de companhia; é também a sensação de que algo está em falta, algo que não conseguimos nomear. Hoje, senti essa falta de forma mais intensa, mas também percebi que ela faz parte de quem sou, de quem estou a tornar-me.

Assim terminou este dia, aparentemente comum, mas cheio de pequenas revelações. Amanhã será um novo dia, e talvez traga consigo a luz que hoje faltou. A solidão continua aqui, eu sei. Mas talvez amanhã seja diferente.