O Peso de um Sábado

Sábado, 29 de Março de 1975

A manhã nasceu cinzenta, com nuvens pesadas a encobrir o sol. Uma chuva fina e persistente parecia querer lavar as mágoas dos dias anteriores.


Não era um dia convidativo para grandes aventuras, muito menos para tentar ver a Dila.

Mesmo que o tempo estivesse melhor, de pouco adiantaria. O pai dela tinha ficado em casa, o que tornava impossível qualquer tentativa de aproximação. Por mais que me custasse admitir, talvez fosse melhor assim.

Ainda sentia o peso do dia anterior. Aquele riso…

Fechei os olhos por um momento, tentando afastar a lembrança. Tinha sido mesmo um escárnio dirigido a mim? Ou seria apenas uma brincadeira inocente entre amigas? O problema é que eu não conseguia tirar da cabeça a expressão dela naquele instante. Por que razão me olhara daquela maneira?

Estaria a fazer um drama desnecessário?

Suspirei e levantei-me da cadeira onde estivera sentado, a olhar pela janela. A rua estava vazia, apenas algumas poças no chão reflectiam a monotonia do dia.

Pelas onze horas, o meu tio apareceu para visitar os meus pais. A conversa animada que se instalou na sala foi uma distracção bem-vinda. Entre risos e recordações de outros tempos, os adultos resolveram dar um passeio à tarde.

— E tu vens connosco! — anunciou a minha mãe, sem me dar muita escolha.

Não me opus. Talvez me fizesse bem sair um pouco e afastar a cabeça de pensamentos que, por mais que tentasse, insistiam em atormentar-me.

Saímos depois do almoço. O tempo continuava incerto, mas já não chovia. O cheiro a terra molhada misturava-se com o aroma das flores que começavam a despontar nos jardins, lembrando-nos de que a Primavera estava a instalar-se, mesmo que de forma tímida.

O passeio foi tranquilo. Passamos por ruas antigas, trocamos palavras com alguns conhecidos e paramos num pequeno café onde o meu tio e o meu pai falaram demoradamente sobre o passado. Eu ouvia, absorvendo as histórias de outros tempos, tempos que me pareciam tão distantes, mas que, de alguma forma, também faziam parte de mim.

A certa altura, deixei de prestar atenção e voltei a mergulhar nos meus próprios pensamentos.

Os últimos dias tinham sido uma montanha-russa de emoções. A excitação de ver a Dila, a frustração da timidez que me impedia de falar com ela, a alegria dos momentos de esperança e, depois, a desilusão do dia anterior.

Talvez estivesse a dar demasiada importância a tudo isto. Mas como não dar? Cada olhar dela, cada gesto, cada pequeno detalhe ganhava um significado maior dentro de mim.

O que viria a seguir?

Naquele momento, apercebi-me de que, por mais voltas que o mundo desse, a minha mente continuava fixada nela.

O passeio acabou, e quando regressamos a casa, já o céu começava a clarear, com alguns raios de sol a espreitar por entre as nuvens. Sentei-me no meu quarto, olhando pela janela, e decidi que não vou deixar que este desânimo me domine. A Primavera está a chegar, e com ela trazem-se novas oportunidades, novos começos.

Foi um dia calmo. Diferente. Talvez necessário. Mas, no fundo, a tempestade que importava não era a que se via no céu—era a que estava dentro de mim.

Assim terminou este dia, mais calmo e reflexivo. A chuva lavou as ruas, e espero que também tenha lavado um pouco da mágoa que carrego. Amanhã será um novo dia, e estou decidido a enfrentá-lo com mais coragem.