O riso que me quebrou

Sexta-feira, 28 de Março de 1975

Hoje foi um daqueles dias que deixam uma cicatriz onde antes havia apenas pele intacta. Daqueles que não se esquecem — instalam-se em silêncio e voltam, sem aviso, quando menos esperamos.

Tudo começou por volta das três da tarde. O Benjamim, talvez entediado com a monotonia habitual das nossas tardes, sugeriu irmos dar uma volta. Disse que devíamos passar pela casa da Odília. Hesitei. Senti um aperto no peito, uma sombra a formar-se antes mesmo de o sol baixar. Mas acabei por concordar. A minha timidez — essa velha companheira — levou-me a sugerir uma pequena clareira próxima da casa dela. Era o meu refúgio, um canto do mundo onde julgava poder controlar o imprevisto.

Chegados lá, o silêncio era quase reconfortante. Sentámo-nos, e o tempo escoava-se devagar, como um rio cansado. Estava absorto nos meus próprios pensamentos quando o Benjamim, com um sobressalto súbito, chamou a minha atenção. Segui o olhar dele — e lá vinham elas.

A Odília. Os irmãos. Uma amiga.

Caminhavam na nossa direcção com uma naturalidade que me confundia. Achei que o Benjamim estivesse a brincar, mas não. Um calafrio percorreu-me quando percebi que era real. Estavam mesmo a vir ter connosco.

Fiquei imóvel, como se o corpo já não me pertencesse. Não consegui articular palavra, nem sequer ordenar os pensamentos. Passaram por nós como se fôssemos parte da paisagem. Detiveram-se um pouco mais à frente. O embaraço que me invadiu era novo, afiado. O coração batia descompassado, e uma estranha inquietação instalou-se dentro de mim.

O silêncio entre mim e o Benjamim era denso, quase físico.

E então, contra todas as expectativas, elas voltaram. Caminharam até nós e sentaram-se, como se tudo aquilo fosse natural. Começaram a sussurrar entre si. Riam-se. Partilhavam segredos a que nós, evidentemente, não pertencíamos. E foi nesse murmúrio que ouvi um riso — abafado, cortante, cruel. Um riso que me atravessou como uma lâmina.

Procurei, desesperado, a origem daquele som. E encontrei-a no rosto da Odília. O sorriso que tantas vezes imaginei terno, era agora um espelho quebrado. E o que vi reflectido magoou-me de um modo que nem sei bem descrever.

A dor foi imediata, absoluta. Senti-me ridículo, exposto, traído por uma ideia que eu próprio criara. Levantei-me, nervoso, incapaz de suportar a humilhação. Afastei-me, deixando o Benjamim para trás, os passos vagos, a cabeça num redemoinho de emoções.

Quando cheguei a casa, sentia o peso do mundo sobre mim. Mas em vez de procurar abrigo na segurança das paredes familiares, senti um ímpeto estranho: o de voltar atrás. Queria entender, enfrentar, talvez até resgatar algo que já não existia.

Voltei à casa dela.

Vi-a ao longe, com o pai. Todas as palavras que tinha ensaiado evaporaram-se. Fiquei parado, incapaz de avançar. E, mais uma vez, regressei a casa — mas desta feita, derrotado.

Agora, neste quarto silencioso, as sombras a dançarem nas paredes, dou por mim a reflectir. Terá sido tudo apenas fruto da minha imaginação? Terá aquele riso sido inofensivo, uma coincidência cruel amplificada pela minha própria insegurança?

Talvez.

Mas algo mudou hoje. A imagem que fazia da Odília — frágil, pura, idealizada — desfez-se. E o que restou foi apenas uma jovem comum, capaz de rir-se de um coração exposto.

Não consigo dormir.

O que mais me dói não é o riso — é a revelação. O desmanchar de uma fantasia, o choque com a realidade crua. Descobrir que quem admiramos também pode ser cruel. Ou simplesmente indiferente.

Amanhã o dia nascerá, como sempre. Mas hoje... hoje algo em mim morreu. Talvez a inocência. Talvez a ilusão de que o amor, por ser puro, é também seguro.

Talvez o mundo tenha mostrado a sua verdadeira face, e eu... comecei, enfim, a vê-la.