Lá onde a Dila não estava
Quinta-feira, 27 de Março de 1975
Hoje o céu trouxe o peso das nuvens baixas, como se o mundo inteiro suspirasse por algo que tarda em chegar. Mas eu não me deixei contagiar. Há dias em que, mesmo sob um tecto cinzento, o coração insiste em acender luzes por dentro. E hoje foi um desses dias.
Não a vi. Não como ontem. Não com os olhos, pelo menos. Mas ela esteve lá, Dila — como uma nota de música que ecoa depois da última batida, como uma presença que se aloja no fundo do pensamento e já não sai. A ausência dela tem a forma dela. E vê-se.
De manhã, recebi a visita do Benjamim — doente nos dias anteriores, mas hoje com o rosto limpo de febres e a alegria no olhar. É mais do que um amigo: é daqueles que a vida nos oferece sem explicação, e que a alma imediatamente reconhece como irmão. Falamos como se não houvesse mais tempo para perder — da escola, das tardes longas, das parvoíces que só nós achamos piada. Marcamos encontro para mais tarde, como dois miúdos que têm o mundo todo ainda por explorar.
À tarde, fui ao encontro dele. Estava debruçado sobre uma motorizada velha, daquelas que já viram demasiados invernos e sabem mais histórias do que gente. Tentava pô-la a trabalhar com a teimosia de quem recusa desistir. Ri-me ao vê-lo lutar com aquele bicho de ferro, e sem grande cerimónia juntei-me à tarefa.
— Achas que ainda tem alma? — perguntei, enquanto ele torcia o punho como quem arranca a verdade ao silêncio.
— Se tiver, hoje vai ter de acordar — respondeu, com um sorriso torto e mãos sujas de óleo.
Lá conseguimos. E lá fomos, estrada fora, dois cavaleiros sobre uma fera resmungona que parecia querer parar a cada esquina. O destino? Um pequeno largo junto da casa da Dila. Paramos ali como se fosse por acaso. Mas não há acasos quando se trata de amor. Há intenções disfarçadas de passeio.
Ficamos por ali, sentados num muro, a ver os minutos passar como folhas levadas pelo vento. Falamos de tudo e de nada. A motorizada, ingrata, voltou a dar-nos luta. Mas não desistimos. A teimosia tem mais sabor quando é partilhada. No fim, o motor voltou a roncar, como que a agradecer o nosso esforço.
E eu, nesse momento, dei por mim a pensar que talvez tudo na vida fosse assim — coisas antigas que deixamos de tentar pôr a funcionar, pessoas que desistimos de entender, amores que não temos coragem de confessar… Mas às vezes, basta insistir um pouco mais.
Hoje aprendi que a alegria não precisa de sol — basta um amigo verdadeiro, um pretexto qualquer para sorrir, e a memória de um olhar que se deixou ficar. Mesmo quando não se vê, sente-se. E isso basta.
Este foi um dia de muitas emoções, típicas da nossa adolescência – a amizade, a persistência, e a capacidade de encontrar felicidade nas pequenas vitórias. Fecho este dia com o coração cheio de gratidão e esperança de que os dias vindouros tragam mais momentos assim.
Agora no silêncio da noite, enquanto revejo os acontecimentos deste dia, sinto uma mistura de emoções a invadir o meu coração. Hoje foi um dia que apesar dos momentos de alegria e companheirismo percebi a importância que a "Dila" tem na minha vida e a saudade que senti.
A "Dila", é muito mais do que uma simples colega. Ela ocupa um lugar especial no meu coração, um espaço que ninguém mais consegue preencher. A sua presença tem a capacidade de iluminar o meu dia, mesmo nos momentos em que não está presente. E hoje, embora não tenha tido a oportunidade de a ver, senti a sua falta de uma forma intensa e profunda.
Enquanto estava no pequeno largo, perto da casa dela, não consegui evitar pensar nela. Cada canto daquele lugar traz-me recordações dos momentos que passamos juntos, das conversas que partilhamos e dos sorrisos que trocamos. A sua ausência hoje fez-me perceber ainda mais o quanto ela significa para mim.
A Dila tem uma maneira especial de fazer com que tudo à sua volta pareça melhor. A sua voz, o seu riso, e até mesmo o seu olhar têm um efeito calmante e reconfortante. Ela compreende-me como ninguém mais consegue, e estar na sua companhia é sempre um momento de alegria e paz. A sua falta hoje deixou um vazio que nem mesmo a companhia do meu amigo conseguiu preencher totalmente.
As saudades que sinto dela são profundas e verdadeiras. Desejo poder vê-la novamente, partilhar os meus pensamentos e ouvir os dela. Imagino como seria o dia se ela tivesse estado presente, como tudo teria sido ainda mais especial com a sua presença. A esperança de poder vê-la em breve mantém-me motivado e alegre, apesar da distância momentânea.
Enquanto escrevo estas palavras, o sentimento de saudade mistura-se com uma gratidão imensa por tê-la na minha vida. A Dila é uma das razões pelas quais os meus dias são mais felizes e completos. Ela trouxe uma nova luz à minha existência, uma que eu jamais quero perder.
Fecho esta reflexão nocturna com o coração apertado de saudades, mas também cheio de esperança. Acredito que em breve poderei vê-la novamente e partilhar com ela todas as pequenas e grandes coisas que fazem parte do meu dia a dia.
Até lá, guardo as lembranças dos momentos que passamos juntos e alimento-me da esperança de dias ainda mais brilhantes ao seu lado.