O instante que muda o dia

Quinta-feira, 10 de Abril de 1975

O amanhecer não teve pressa em chegar. O céu estava límpido, lavado, e a luz dourada que se insinuava pelas janelas trazia a promessa de uma tarde longa e aberta. Na rua, o compasso apressado dos passos misturava-se com o tilintar das chávenas na cozinha, onde a minha mãe preparava o pequeno-almoço. Vesti-me devagar, ainda preso ao torpor do sono, como quem arrasta um corpo que ainda não despertou por completo.

À tarde só tive uma aula. A última foi cancelada, e aproveitei logo para arrastar o Benjamim comigo. Cheguei a casa perto das seis, lanchei, e fiquei à espera dele. Quando finalmente apareceu, vinha com uma novidade que me fez perder o ar.

— Olha que vi a Dila! — atirou ele, mal transpôs a porta.

Levantei as sobrancelhas, desconfiado:

— Estás a gozar?

— Não, é mesmo verdade. Ia para casa, deve ter vindo de algum lado.

A desconfiança não me deixou ficar parado. Corri à rua, com a esperança a empurrar-me. E era verdade: vi-a, ao longe, caminhando apressada. Pouco tempo, é certo, mas bastou. O coração acelerou, e de repente o dia tinha cor, como se uma janela se tivesse aberto.

Logo depois o Manel apareceu, e acabámos a jogar à bola. O jogo ia animado até que os dois começaram a atirar pedras um ao outro.

— Parem com isso! — gritei, erguendo o braço para os travar.

Nesse instante, uma dor aguda atravessou-me as costas. Baixei o braço de imediato, como se tivesse sido atingido também. Tentei ignorar, mas a dor foi-se instalando, cada vez mais funda, cada vez mais presente. Não sei o que poderá ser; já me ocorre se não terá sido uma costela deslocada.

Agora escrevo com esforço, porque o corpo insiste em lembrar-me da sua fragilidade. É estranho como tudo muda num segundo: de um simples jogo à consciência dolorosa de que não somos invencíveis. Talvez tenha sido apenas um gesto em falso, ou talvez um aviso para abrandar.

Adormecer foi uma pequena batalha. A dor não queria ceder, mas o sono acabou por vencer.