Abril, Liberdade e Silêncios

Quarta-feira, 9 de Abril de 1975

O exercício de Matemática caiu-me em cima da mesa como um teste silencioso à minha própria atenção. À primeira vista, parecia simples, quase simpático. Olhei para o enunciado e murmurei para mim mesmo:

— Isto hoje vai correr bem.

Mas, à medida que avançava, a confiança começou a encolher. Era como se cada conta me lembrasse que a minha mente andava noutro lugar. A professora aproximou-se, espreitou por cima do meu ombro e perguntou:

— Está tudo claro?
— Sim… acho que sim — respondi, com aquele “acho” que esconde mais incerteza do que quero admitir.

A verdade é que a minha cabeça não está totalmente aqui. Ainda carrego o peso de domingo, como se um eco se recusasse a apagar. Não é fácil desligar-me; quando algo me inquieta, demora a largar-me.

No caminho para casa, os meus pensamentos derraparam para um Abril diferente. Abril de 1974, cravos vermelhos e gente a sorrir nas ruas. Liberdade conquistada. Hoje já não há censura, podemos dizer o que pensamos. Mas pergunto-me: será que usamos bem essa liberdade? Ou gastamo-la em pequenas queixas sobre aulas, trabalhos e regras que, no fundo, até nos permitem crescer?

E, claro, no meio desta corrente de pensamentos, a Dila surgiu. Não sei bem porquê. Talvez porque liberdade também é isso: poder sentir, poder gostar de alguém sem medo, sem precisar de esconder. Mas será que ela me vê da mesma forma? Às vezes penso que o meu coração também vive um 25 de Abril por dentro — uma revolução lenta, cheia de esperança, mas ainda à espera de acontecer.

Terminei o dia com essa mistura de ideias: a liberdade que os outros conquistaram para mim, e a liberdade que eu ainda procuro conquistar dentro de mim… talvez junto da Dila.