A Liberdade Suspensa de uma Terça-feira

Terça-feira, 8 de Abril de 1975

A manhã insinuou-se com timidez pelas frestas da persiana, lançando dedos de luz sobre o chão de madeira gasto. Ainda sonolento, ouvi o ranger habitual da casa a acordar com o sol. Levantei-me sem grande pressa, a roupa escolar já escolhida da véspera — uma camisa branca com cheiro a sabão azul e branco, e umas calças que já viram dias melhores. A rotina instalava-se como um velho conhecido, mas nessa manhã qualquer coisa no ar — talvez o silêncio, talvez a leve brisa — parecia anunciar uma pequena revolução.

O dia escolar foi breve, demasiado breve até para se tornar cansativo. Duas aulas e meia. Sim, meia — porque a última foi interrompida por uma algazarra ridícula entre o Rui e o Machado. Começou com provocações estúpidas, coisas de miúdos que querem ser homens, e terminou com cadeiras tombadas e gritos abafados pela autoridade do professor Armando.

— Acham-se muito engraçados? — trovejou ele, com a cara vermelha como um tomate amadurecido à pressa. — Isto é uma escola, não um circo!

Ninguém respondeu. O silêncio que se seguiu foi mais pesado do que os gritos.

Saí da sala com a alma leve e um meio sorriso que me traiu. Liberdade antecipada é como um bombom escondido no fundo da gaveta — sabe melhor porque não se esperava. Caminhei para fora dos portões como quem atravessa uma fronteira secreta, sentindo o sol morno a pousar-me nos ombros.

Andei sem rumo pelas ruas, os sapatos a ressoarem nas pedras como um tamborim discreto. Ouço ainda o som das folhas a dançar com o vento e o riso de uma criança ao longe, talvez à saída de outra escola. Em mim, uma estranha paz. A liberdade, quando vem sem aviso, tem o sabor de um dia roubado ao tempo. Faz-nos pensar.

Que seria da vida se não houvesse horários nem campainhas? Se o tempo fosse nosso por inteiro, como um campo aberto onde pudéssemos correr sem destino?

Sentei-me num banco do jardim. As árvores já tinham sombras longas e preguiçosas. Um velho lia o jornal de pernas cruzadas. Uma rapariga passeava um cão minúsculo que parecia mais preocupado em não tropeçar nas folhas do que em farejar aventuras. Fiquei ali, sem mais nada do que a presença de mim mesmo.

Quando o entardecer se anunciou em tons de laranja e azul, senti o mundo abrandar. As luzes das casas acendiam-se uma a uma, como confidências entre vizinhos. E a noite chegou, não com pressa, mas com a serenidade de quem sabe que não tem de provar nada a ninguém.

Aquele pedaço de tempo — inesperado, limpo, livre — ficou gravado em mim. Como uma fotografia sem moldura, mas que sabemos onde guardar.

Talvez a infância não seja feita só de grandes memórias. Talvez esteja nos pequenos desvios, nos dias roubados à rotina, na doçura de um entardecer que não pedimos, mas que nos foi oferecido.