Segunda-feira Incompleta

Segunda-feira 7 de Abril de 1975

Hoje o dia começou como tantos outros: apático, com um céu esbranquiçado que parecia não saber se havia de ser cinzento ou azul. Tive apenas três aulas — matemática, português e inglês. Durante a terceira, o professor falava de verbos irregulares, mas a minha mente vagava por terrenos bem mais instáveis: o sorriso da Dila, o som da sua gargalhada, a curva da sua nuca quando prendia o cabelo.

A quarta aula? Nem a cheirei. Faltei ás aulas com o Benjamim e o Jorge, alegando uma dor de cabeça que só a liberdade poderia curar. A quinta foi cancelada por causa de uma actividade da PRP — Prevenção Rodoviária Portuguesa. Um tipo qualquer apareceu lá com panfletos e um filme a preto e branco sobre acidentes de viação. Pelo que me disseram depois, houve até um boneco a ser atropelado.

Com tempo nas mãos e nenhuma ideia de como usá-lo, fui até casa da Dila. A esperança era tola, mas persistente — dessas que já sabem que vão perder, mas aparecem à mesma. Subi a rua devagar, como se cada passo fosse um passo no vazio. Bati mentalmente à sua porta duas vezes. Nada aconteceu como era de esperar. Voltei a bater, pois o desejo era imenso, como quem chama sem querer incomodar. Silêncio era inevitável.

Fiquei ali parado, num limiar entre teimosia e decepção. Olhei para o puxador da porta ao longe, como se pudesse convencê-lo a girar sozinho. Senti-me ridículo. Mas não me mexia. Talvez, quem sabe, ela aparecesse vinda do nada, a correr, a sorrir:

— «Estás aqui? Desculpa, fui só à mercearia… Entra.» Sonho tolo o meu.

Mas nada disso aconteceu. O caminho devolveu-me apenas um silêncio oco, desses que não fazem eco.

Regressei a casa devagar, com passos sem destino e o coração a arrastar-se no chão como sombra sem luz.

Mais tarde, o Manel e o Benjamim estavam a jogar à bola no largo em frente a minha casa, e eu juntei-me a eles para não pensar. Ou para fingir que não pensava. O jogo era um refúgio: correr atrás de uma bola, empurrar o corpo até ele se esquecer que tem coração. Mas mesmo ali, entre gritos e risos, o nome dela atravessava-me o pensamento como uma brisa teimosa: Dila.

— «Eh pá, "Tono"! Estás a dormir ou quê?!» — gritou o Manel, depois de eu deixar passar uma bola fácil.

Sorri.
— «Não, estou só a ver o jogo de outro ângulo…»

Riram-se. Eu também. Mas por dentro, só me apetecia estar noutra parte do mundo. Ou, mais precisamente, num sítio qualquer, ao lado dela.

À noite, deitei-me com o corpo dorido e a alma em espera. Fechei os olhos e tentei enganar o cansaço, mas o pensamento insistia em traçar os contornos do rosto dela — as pestanas compridas, o olhar meio sério, meio divertido, aquele jeito de inclinar a cabeça como se estivesse sempre a ouvir um segredo que mais ninguém percebia.

Estava ausente e, mesmo assim, enchia o meu quarto como perfume esquecido num lenço.

E foi com essa ausência perfumada que adormeci — ou tentei.