Entre Silêncios e Olhares
Domingo 6 de Abril de 1975
Lá fora, o novo dia desenhava-se tranquilo, mas havia algo na quietude que me parecia enganador. Um pressentimento indefinido, como se a calma fosse apenas um intervalo antes de algo mais.
Levantei-me devagar, tentando dissipar a preguiça com um gesto mecânico de passar a mão pelo rosto. Ainda antes de sair do quarto, soube que aquele dia, que parecia igual a tantos outros, acabaria por trazer consigo algo que eu ainda não conseguia nomear.
O Benjamim mencionara na véspera que talvez desse para irmos passear a cavalo – um belo animal que pertencia ao tio dele. Ficou de me chamar, mas nunca apareceu. Senti um leve aborrecimento, mas rapidamente o esqueci ao deixar-me envolver por um filme que passava na televisão.
Foi então que o Manel surgiu, interrompendo a minha distracção. Bastou um olhar para perceber que ele trazia novidades. Aproximei-me, esperando qualquer coisa trivial, mas as palavras dele fizeram-me disparar o coração:
– A Dila está no adro da igreja.
Mal tive tempo de reagir. O nervosismo tomou conta de mim e, sem hesitar, apressei-me a sair. Ao chegarmos ao local, olhámos em redor, mas ela não estava à vista. Começámos então a procurá-la, e não tardámos a encontrá-la em frente ao cinema, acompanhada por três colegas e pela irmã.
Tentámos passar despercebidos, mas sem sucesso. Não tardou até que a irmã dela se apercebesse da nossa presença e nos seguisse, mantendo-se sempre por perto, como que a vigiar-nos. Pouco depois, o meu amigo deixou-me sozinho.
Por algum tempo, mantive-me à distância, observando-a. Acabou por se sentar no muro, a uma distância razoável de mim, sempre rodeada pelas colegas. Não sei se foi impulso ou estratégia, mas decidi colocar-me frente a frente com elas, encurtando a barreira invisível que nos separava. O destino quis que, pouco depois, as colegas e a irmã se afastassem, deixando a Dila sozinha.
Ali fiquei, simplesmente a contemplá-la.
O tempo passava e eu permanecia imóvel, até que as amigas voltaram. Enquanto a observava, reparei que três rapazes se aproximavam, já antevendo a intenção deles. Tal como suspeitava, tentaram meter conversa, mas a Dila, sem hesitação, afastou-se. Pouco depois voltaram a insistir, desta vez dirigindo-se a ela directamente. Eu prendi a respiração, mas logo vi algo que me encheu de satisfação: ela virou-lhes as costas sem dar troco.
Sorri para mim mesmo.
Instantes depois, uma colega dela aproximou-se de mim e perguntou, sem rodeios:
– Estás zangado com ela?
Surpreendido, mas sem hesitar, respondi:
– Claro que não.
E assim se passou a tarde. Mais tarde, o meu Benjamim reapareceu e, juntos, decidimos ir embora. Não foi surpresa para nós quando percebemos que elas vinham atrás. Aproveitando a deixa, pedi ao meu Manel que lhes perguntasse se viriam no domingo seguinte.
A resposta que recebi, porém, apanhou-me de surpresa:
– O teu colega está zangado comigo.
O meu amigo, talvez para me provocar ou apenas por descuido, respondeu afirmativamente. A Dila então disse-lhe simplesmente:
– Diz-lhe que me desculpe.
As palavras dele deixaram-me desconcertado. Senti-me ridículo. Não havia motivo para ela pensar que eu estava zangado, e, no entanto... algo me dizia que, para ela, aquilo tinha importância.
O resto do dia passou-se num turbilhão de pensamentos. Não conseguia afastá-la da minha mente. Eu estava apaixonado. E agora não restavam dúvidas.