A Expectativa no Ar

Sábado 5 de Abril de 1975

A manhã seguinte trouxe um alívio inesperado: apenas quatro aulas, pois uma professora faltou. Tudo decorreu sem sobressaltos, mas a minha cabeça já estava noutro sítio, talvez ainda na noite anterior, talvez já a antecipar a que estava para vir.

À noite, fui ao cinema com o meu pai e o Benjamim. O filme foi interessante, mas confesso que a minha atenção se dispersava por outros pensamentos. Havia qualquer coisa no ar, uma espécie de expectativa, de energia nova que não me deixava simplesmente absorver a história projectada no ecrã.

Depois do filme, passei na sede do PCP para comprar o jornal do partido. Mal entrei, fui logo convocado para uma tarefa inesperada: ajudar na colagem de cartazes. Aceitei sem hesitar. Havia uma certa adrenalina nestas acções, uma sensação de compromisso que me fazia sentir parte de algo maior. Durante horas, percorremos ruas e paredes, colando mensagens, espalhando palavras de ordem, enquanto a noite avançava silenciosa.

A certa altura, a cola acabou. Ainda tentamos improvisar, mas não havia grande solução. O entusiasmo inicial deu lugar a uma resignação silenciosa. Já passava das três da madrugada quando começamos a arrumar o que restava, sentindo o peso da noite nos músculos. O regresso fez-se devagar, o cansaço marcando o ritmo dos passos. No entanto, dentro de mim, havia uma estranha satisfação. Algo indefinível, como se aquela noite tivesse sido mais do que apenas mais uma. Como se cada momento contasse para algo maior, mesmo que ainda não soubesse exactamente para quê.

O sono veio depressa, arrastando-me para um silêncio profundo e sem sonhos. Quando abri os olhos, a luz do dia já se derramava pelo quarto, anunciando uma manhã que chegava tarde. Espreguicei-me devagar, sentindo o corpo ainda pesado. Por instantes, fiquei ali, preso entre o torpor do sono e a lembrança dispersa da noite anterior.