O Primeiro Passo Não Faz Barulho

Sexta-feira, 4 de Abril de 1975

O dia começou como tantos outros, cinzento e meio turvo, como se o céu tivesse acordado sem vontade de sair da cama. A luz era baça, sem graça. Nem o sol se dava ao trabalho de aparecer. A escola, claro, seguiu o guião habitual: aulas, mais aulas, e aquela sensação de que estamos todos presos num disco riscado.

Os professores falavam, mas as palavras escorriam pelos cantos da sala como água morna. Nem barulho havia, só o tic-tac do relógio e o arrastar de cadeiras. A rotina estava tão afinada que até os bocejos pareciam ensaiados.

No intervalo, o Manel encostou-se à parede e disse-me com ar de tédio:

— Olha, isto está sempre igual. Qualquer dia venho de olhos fechados, que é para ver se muda alguma coisa.

— Ou então vens de pijama, que é o que isto parece: um sonho que nunca mais acaba — respondi.

Rimo-nos, mas era riso sem alegria. Estamos todos a remar num mar de papel e pó, e a maré nunca muda.

Mas à noite… à noite foi diferente. Já há semanas que andava com a ideia na cabeça, e hoje aconteceu. Entrei para a Juventude Comunista.

O meu pai foi comigo. Vinha calado, mas o silêncio dele tinha conteúdo, como se me estivesse a passar um testemunho que não precisava de ser dito. À porta da sede, parou, olhou-me de lado e disse:

— Sabes ao que vens?

— Acho que sim. Quer dizer… estou pronto.

Ele assentiu com um "hum" que podia ser aprovação ou dúvida. Depois, lançou-me uma última frase antes de se ir embora:

— Só te peço que penses pelas tuas próprias ideias. O resto aprende-se.

Lá dentro, encontrei caras conhecidas do meu liceu. O Mário, da turma de Matemática, e a Clara, que anda sempre com discos do Zeca debaixo do braço. Sorriu quando me viu.

— Eh pá, tu por aqui? Pensava que eras mais do tipo ficar a pensar sozinho no recreio…

— Pensavas mal — atirei, meio a rir, meio sem jeito.

O ambiente era animado mas não caótico. Havia conversas em voz baixa, trocas de opiniões, olhares atentos. Ninguém impunha nada, era como se estivéssemos todos a montar um puzzle gigante, cada um com uma peça diferente.

Um tipo magricela, com cabelo comprido e uma camisola de gola alta, disse com convicção:

— Aqui não é para andar a repetir o que os outros dizem, pá. Se for só para isso, mais vale ficar em casa a ouvir o noticiário.

Sorri. Senti-me, pela primeira vez em muito tempo, no lugar certo. Não por ser confortável, mas por me puxar para fora de mim.

Fiquei até à sede fechar. Quando saí, a noite estava fria, mas leve. Como se o mundo lá fora me estivesse a testar: "Então, rapaz, estás mesmo pronto para isto?"

Hoje não mudei de roupa, nem de escola, nem de mundo. Mas mudei de pele por dentro. Dei um passo pequeno com significado grande. Entrei para algo maior do que eu. E isso não assusta, desafia. O meu pai, a sede, os rostos conhecidos, os silêncios e as frases soltas… tudo isso compôs o início de qualquer coisa.

E o mais curioso é que, ao contrário da escola, aqui sinto que não estou a repetir o ontem. Estou a começar o depois.