O Olhar da Professora

Quinta-feira, 03 de Abril de 1975

Hoje o dia nasceu envolto numa luz pálida, indeciso entre o frio teimoso da madrugada e a promessa ténue de calor. Havia uma névoa suave a cobrir os campos como um lençol esquecido — não daqueles que aquecem, mas daqueles que apenas escondem o que está por baixo. O céu era um espelho baço. As árvores, imóveis, pareciam escutar qualquer coisa que eu ainda não conseguia ouvir.

As aulas pareceram mais curtas hoje — ou talvez fosse apenas a minha cabeça, ainda dispersa, a flutuar entre pensamentos e memórias que se recusavam a sair da minha órbita. Só tive três disciplinas. As duas últimas horas foram ocupadas com Educação Física, e confesso que não me importei. A correria atrás da bola, os saltos, os risos breves, os gritos que ecoavam no pavilhão… tudo isso serviu para me distrair. O corpo obedece, ainda que o coração se mantenha em greve.

Contudo, mesmo nos momentos mais banais, a escola continua a ser palco de pequenos teatros. Bastam olhares, silêncios, ou uma pausa fora de tempo para revelar aquilo que ninguém diz.

Hoje, senti isso com força quando entrei na aula de Ciências Físico-Químicas. A professora olhou para mim com um misto de curiosidade e hesitação. Não era só atenção pedagógica. Havia algo mais naquele olhar — como se ela tentasse ler uma carta que já escrevera, mas que não tivera coragem de enviar.

— Então, António… — disse ela, arrastando ligeiramente a voz ao pronunciar o meu nome. — Conseguiu resolver o exercício sobre combustão?

— Sim, professora… mais ou menos — respondi, sem lhe sustentar o olhar. Fingi procurar algo na mochila.

Ela aproximou-se da minha secretária. O seu tom era neutro, mas havia ali uma vibração subtil, como quem caminha numa corda esticada entre o que deve e o que deseja.

— “Mais ou menos” não serve para a Ciência. Ou é, ou não é — disse, sorrindo com os lábios mas não com os olhos. Depois continuou a andar entre os alunos.

Essa frase ficou-me. O tom, sobretudo. Não era só sobre combustão.

Não sei se era apenas a minha imaginação, ou se o episódio de há uns dias ainda pairava no ar. Um comentário mais pessoal, talvez um elogio fora do contexto, que me deixou desconfortável. E eu... ignorei. Ou fiz por isso. A fronteira entre a simpatia e outra coisa qualquer nem sempre é clara — mas quando se cruza, sente-se. E eu senti.

Preferi não comentar com ninguém. Se o dissesse em voz alta, corria o risco de transformar um eco em realidade.

O resto do dia passou sem grandes sobressaltos. O som do sino a marcar o fim das aulas foi quase um alívio. Saí da escola com passos leves, não porque tivesse pressa, mas porque precisava de respirar ar que não soubesse a giz nem a mal-entendidos.

Na paragem de autocarro, sentei-me com o sol finalmente a aquecer o banco de pedra. O silêncio soube-me bem. Ao meu lado, dois colegas discutiam futebol com a paixão ingénua de quem ainda acredita que tudo se resolve com um golo nos descontos.

Eu fiquei ali, a ver o fumo das chaminés ao longe, a pensar que talvez a professora tivesse razão: “Ou é, ou não é.” Mas nem sempre temos coragem de escolher.

E assim terminou a quinta-feira. Sem faíscas visíveis, mas com brasas a arder por dentro.