Onde Começa o Silêncio

Quarta-feira, 02 de Abril de 1975


Hoje, o regresso às aulas chegou sem entusiasmo, como um velho conhecido que já não nos diz nada de novo — mas ainda assim, aparece. Ao vestir-me, senti um nó leve no estômago. Não era medo, nem sequer nervosismo verdadeiro. Era outra coisa. Uma inquietação que não sabia nomear. Como se, algures entre o último pôr-do-sol das férias e este nascer de rotina, algo em mim se tivesse deslocado. Um desalinho imperceptível. Um antes e depois silencioso.

No caminho para a escola, a rua parecia mais estreita do que me lembrava. As vozes dos colegas soavam altas demais. Cheguei ao portão e, ao cruzar a entrada, pensei:
"Estou aqui, mas não estou inteiro."

As primeiras aulas passaram arrastadas, como um comboio lento numa linha sem curvas. Nada de especial. Até que chegou a aula de História.

— "Se é para continuarem com esta falta de respeito, então não vale a pena!" — gritou a professora, largando os livros sobre a secretária com um estrondo seco.

E saiu. Assim, sem cerimónias. A turma ficou em silêncio por um segundo inteiro — o mais longo que já se vivera naquela sala. Depois, claro, vieram os murmúrios, as gargalhadas abafadas, os comentários inúteis.

— "Ela não aguenta mais um período connosco..." — sussurrou o Tiago, com um meio sorriso.

— "Ninguém aguentava, com este circo," — respondeu a Rita, revirando os olhos.

Mas eu não disse nada. Limitei-me a olhar pela janela. A voz da professora já antes me chegava como um eco distante, mas hoje nem isso. Estava a mil quilómetros dali — ou pelo menos assim me parecia.

O meu pensamento... esse estava na clareira. No riso da Dila a subir como fumo quente no fim de uma tarde dourada. Estava no modo como ela dizia o meu nome, como se o conhecesse desde sempre. No modo como me olhava... ou talvez fosse imaginação minha.

"Estará ela agora a pensar em mim? Estará sentada numa sala como esta, a perder-se nas mesmas dúvidas?" — perguntei-me.

Talvez. Ou talvez não. Talvez tenha sido só mais uma tarde para ela. Talvez eu seja só mais um entre os rostos que passam por ela todos os dias. Mas esta incerteza... esta incerteza era minha, e fazia ninho cá dentro.

Às seis e dez em ponto, saí da escola. Esperei pelo Benjamim, como sempre.

— "Hoje estás calado, pá," — disse ele, com aquele sorriso fácil de quem não carrega mundos às costas.

— "Estou só cansado," — menti, ou talvez não.

Fomos a pé até S. Pedro. Falámos de tudo e de nada — futebol, um teste que se aproximava, uma teoria parva sobre um professor nosso ser um ex-espião da Guerra Fria. Rimos um pouco. Fingimos que tudo era como antes.

Já perto de casa, cruzei-me com o Nuno. Não sei bem porquê, mas qualquer coisa no que ele disse — talvez o tom, talvez a escolha das palavras — fez-me responder de forma mais seca do que devia.

— "Estás com os azeites porquê?" — perguntou ele, a meio caminho entre o troço e a troça.

— "Deixa, não é nada."

E realmente, não era. Ou era tudo. Foi daquelas colisões mínimas entre duas vontades desalinhadas. Passou. Mas deixou arranhões na calma.

Quando cheguei a casa, tentei fazer o habitual: lanchar, estudar, alinhar os livros. Mas havia algo em mim que me acompanhava como uma sombra nova. Não era tristeza. Não era bem saudade. Era... o princípio de qualquer coisa. Uma nascente que ainda não sabe que será rio.

À noite, deitei-me sem sono, com o tecto a olhar para mim como quem espera resposta.

Talvez as férias tenham acabado, sim. Mas dentro de mim... dentro de mim começou outra coisa. Uma espécie de alvorada tímida, feita de perguntas que ainda não sei fazer.

E no silêncio do quarto, essa foi a primeira verdade que consegui dizer-me.