A Primavera Não Mente
Terça-feira, 1 de Abril de 1975
O Dia das Mentiras começou sem grandes sobressaltos, mas com a promessa de ser um dia tranquilo. Eram dez da manhã quando o Manel veio bater-me à porta. Saímos para a rua e ficamos sentados no muro em frente de minha casa, entregues a uma conversa sem pressa, sem urgência. O sol da Primavera aquecia-nos suavemente, e o tempo parecia escorrer devagar, como se o dia quisesse prolongar-se mais um pouco antes de nos empurrar de volta à rotina das aulas.A dada altura, decidi ir buscar a bicicleta, talvez para dar um passeio, talvez apenas para ter algo que fazer. Ia já a caminho das traseiras da casa onde guardo a bicicleta, quando o meu colega me lançou uma provocação divertida:
— Olha que a Dila vem pela rua acima!
Ri-me, abanando a cabeça. Claro que não. Era o Dia das Mentiras, afinal. Mas o sorriso desvaneceu-se quando percebi que ele falava a sério. Virei-me de imediato, e lá estava ela, caminhando estrada acima com aquele ar tão próprio dela, tão natural. Ao avistar-nos, sorriu e acenou, sem hesitação. O coração bateu-me um pouco mais depressa.
— Vamos atrás dela? — perguntei, já a meio caminho, sem precisar de ouvir a resposta.
O meu colega não hesitou. Seguimo-la sempre à distância, quase como dois exploradores cuidadosos que temem espantar uma criatura selvagem e rara. Não queríamos ser vistos, mas queríamos vê-la. No entanto, ao fim de alguns minutos, por alguma razão que nem sei bem explicar, voltámos para trás, sem coragem para nos aproximarmos mais. Talvez pelo receio de um momento embaraçoso. Talvez porque não houvesse nada a dizer e, ainda assim, tudo a sentir.
A tarde trouxe novo encontro com os meus dois companheiros de aventura, o Manel e o Benjamim. Pegamos nas bicicletas e fomos para a clareira, um refúgio habitual onde os dias pareciam ter mais espaço para se estenderem. Ficámos lá toda a tarde, ora conversando, ora divagando, ora esperando que o acaso nos favorecesse e nos trouxesse a “sua” presença. Mas ela, a Dila, não apareceu.
O regresso a casa fez-se em silêncio, com um leve travo a desilusão. Não foi um mau dia, mas havia algo de agridoce na consciência de que seria o último dia em que a podia ver antes de regressar às aulas. No dia seguinte, a liberdade das férias daria lugar ao peso dos horários, dos deveres, das obrigações. E ela, a Dila, voltaria a ser apenas um vislumbre fugaz ao longe, num intervalo apressado entre o toque da entrada e o toque da saída.
E foi assim que terminou o dia: sem grandes emoções, mas com aquela inquietação que só o coração de um rapaz de quinze anos pode compreender.