Ecos de uma fotografia perdida

Sábado, 14 de Junho de 1975

O dia seguinte começou sem pressa. O ar da manhã era fresco, mas o céu prometia calor, como se soubesse que as horas se iam alongar num silêncio cheio de pequenas surpresas. Levantei-me cedo, mais por hábito do que por vontade, e saí antes da hora, caminhando sem destino certo, mas com o coração levemente acelerado. Fui esperar a Dila. Não tinha a certeza se a veria, mas havia sempre aquela sensação de que certos encontros acontecem mesmo quando o mundo não se decide a colaborar.

E apareceu. De repente, como um sopro de Verão. Vinha apressada, o cabelo solto a dançar com o movimento, mas ao dar comigo, abrandou o passo. O sorriso surgiu-lhe nos lábios—hesitante, como quem tem algo a dizer e não sabe por onde começar.

— António… — começou, a voz baixinha, quase um segredo — aconteceu uma coisa.

Olhei para ela, intrigado, tentando adivinhar o que pesava no seu pensamento.

— O que é que aconteceu assim de tão grave para estares assim? — perguntei, sem pressa, como se cada palavra pudesse esperar.

— A tua fotografia… perdi-a.

O meu peito ficou suspenso, como se tivesse esquecido de respirar. Durante dias, aquela fotografia estivera com ela—ou pelo menos assim pensava eu. E agora, de repente, desaparecera.

— Como foi que aconteceu? — perguntei, tentando disfarçar que já sabia que a sua mãe a havia encontrado.

A Dila suspirou, e com um gesto tímido ajeitou uma madeixa de cabelo atrás da orelha, o olhar fugidio mas doce.

— Foi a minha mãe… — disse, hesitando — encontrou-a no meu quarto e… ficou furiosa. Disse que não era coisa de menina séria andar com retratos de rapazes escondidos na gaveta.

— E… e o que lhe disseste tu? — perguntei, baixando a voz, quase a temer a resposta.

Ela baixou o olhar, e um sorriso pequeno e meigo se formou nos lábios.

— Tentei explicar-lhe que não era nada de mais… mas sabes como são as mães…

Na minha cabeça, imaginei a senhora, de avental, com os braços cruzados e um olhar severo. A Dila imitou a voz dela, com um tom exageradamente dramático, mas agora quase em sussurro:

— "Dila, isto não se faz… uma rapariga direita não guarda fotografias de rapazes. Ainda se fosse de um familiar…"

Não pude evitar rir, e por um instante o mundo pareceu mais leve, mais próximo dela.

— E depois o que aconteceu a seguir? — perguntei, com cuidado, quase com medo de a magoar com a minha curiosidade.

— Depois… — hesitou, olhando para mim, tímida — eu disse-lhe que era apenas a foto de um amigo. Mas ela pegou na fotografia e guardou-a, como se fosse uma prova de crime. Não me quis dizer onde a pôs.

Ela ergueu os olhos para mim, o brilho da vergonha e do riso misturados, e murmurou:

— Desculpa, António… queria mesmo ficar com ela…

Fitei-a por um instante, sem saber bem o que dizer. Parte de mim sentia-se lisonjeado, se ela a tinha guardado, era porque lhe importava. Mas outra parte sentia um vazio estranho, como se algo meu tivesse sido arrancado para sempre.

— Não faz mal… não te preocupes demais… — murmurei, com a voz suave — Eu dou-te outra, se quiseres… desde que a guardes em lugar seguro.

Quase estive para dizer “guarda-a junto do coração”, mas o silêncio ficou entre nós, terno e carregado de significado. Ela sorriu de novo, um sorriso cúmplice e quente, como se tivesse lido o que eu não disse. E depois, sem mais explicações, despediu-se com um aceno delicado, deixando-me sozinho no meio da rua, a matutar no destino de uma simples fotografia.

Enquanto falava, eu mal lhe seguia as palavras. O timbre da sua voz, o jeito como os seus olhos brilhavam ao explicar-se, o riso ligeiro que lhe dançava nos lábios… tudo nela me absorvia. Era como se, por um instante, o tempo se tivesse dobrado sobre si mesmo, e nada existisse para além daquele momento. Mas o encanto quebrou-se depressa. Tinha de ir, e eu vi-a afastar-se com um aceno rápido, deixando no ar o eco da sua presença.

Fui para a escola ainda a digerir o encontro. No primeiro tempo, a matemática atirou-me um exercício difícil, mas a minha mente estava noutro lugar, a reviver cada gesto da Dila. O resto das aulas passou sem grande alvoroço, até que finalmente me vi livre. Saí com o Benjamim e o Manel, e juntos descemos a rua entre risadas e conversas soltas, enquanto o dia se inclinava para a tarde. Por momentos, senti que a cidade respirava comigo, que cada passo se misturava com os meus pensamentos sobre ela.

Em casa, depois de um lanche rápido, peguei na bicicleta e fui dar umas voltas com o Benjamim. O vento contra o rosto, o ritmo constante dos pedais, a estrada a desenrolar-se à nossa frente era a liberdade em estado puro. Rodamos por ruas e atalhos, sem destino certo, como se estivéssemos a fugir de alguma coisa ou a correr atrás de um mistério invisível. Cada curva, cada sussurro do vento lembrava-me o riso da Dila, e por mais que tentasse afastá-lo, o seu eco seguia-me, doce e insistente.

A noite chegou sem pressa. Fui com o meu pai, não sei bem onde, não sei bem porquê, mas fui. Às vezes, os momentos com ele eram assim, simples e sem necessidade de grandes explicações. E assim se fechou este dia, com memórias rabiscadas num caderno.

O sono veio, mas não trouxe descanso completo. No meu peito havia uma pequena inquietação, uma mistura de perda e desejo, de memória e esperança. A fotografia perdida tornara-se mais do que papel; era agora um símbolo do que eu começava a compreender: o sentir não se guarda, mas vive-se, mesmo que silencioso, mesmo que só no coração.


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