Um silêncio crescente
Domingo, 15 de Junho de 1975
Acordei com um peso no peito, uma inquietação que me acompanhou como uma sombra teimosa durante toda a manhã. O Manel não me saía da cabeça. Não sabia bem porquê, mas havia qualquer coisa nele, na maneira como ultimamente se comportava, que me deixava desconfortável. Não era zanga, nem inveja, talvez apenas uma sensação de afastamento, como se uma nuvem tivesse descido sobre nós e a nossa amizade começasse a atravessar um nevoeiro silencioso.
Levantei-me devagar, tentando afastar a sensação com a rotina da manhã. O café fumegante tinha o aroma reconfortante, mas não conseguia aquecer-me por dentro. O ruído indistinto da casa a despertar misturava-se com o chiar distante de um rádio ligado algures, com a água a correr na cozinha, e mesmo assim a inquietação persistia, como se cada minuto se estendesse mais do que deveria.
Ao pensar na Dila, uma pontada de leveza atravessou-me, como se alguém tivesse aberto uma fresta no dia cinzento. Lembrei-me do sorriso que ela me deu ontem, aquele que me fez sentir que, talvez por um instante, o mundo pudesse ser mais claro, mais simples, e que a minha inquietação encontraria um repouso inesperado. Fechei os olhos e, por momentos, imaginei-a sentada ao meu lado, inclinando-se ligeiramente para me ouvir, a rir baixinho das minhas histórias tontas, aquele riso que parece feito só para mim.
Senti, de repente, que cada pequena preocupação se tornava menor, quase irrelevante, diante da luz suave que ela trazia consigo. Era estranho — um turbilhão de emoções, misto de ternura e fascínio, que me deixava quieto, a ouvir o próprio coração, como se ele tivesse aprendido a sussurrar apenas quando ela ocupava os meus pensamentos. Quis tocar-lhe a mão, apenas para confirmar que aquele momento poderia ser real, e a imaginação traiu-me com um arrepio doce, como se ela sorrisse mesmo com os meus desejos silenciosos.
Fiquei a contemplar o rosto que tinha na memória, tentando gravar cada curva, cada sombra de emoção nos seus olhos, como se pudesse guardar aquele instante para sempre. Um calor subtil subiu-me pelo peito, e, pela primeira vez, senti que a minha confusão interior não era apenas inquietação — era a forma que o coração encontrava de aprender a sentir, de reconhecer o fascínio, a ternura, a beleza do desejo que ainda não se atrevia a falar em voz alta.
Mesmo fechando os olhos, a presença dela parecia real, suave e persistente, e eu percebi que algumas coisas — como a leveza do seu sorriso ou a música do seu riso — podem habitar o coração como pequenas luzes, a iluminar silenciosamente cada sombra que a vida insiste em colocar no caminho.
À tarde, fui com o Benjamim a casa dele. Ali, entre conversas e pequenas brincadeiras, a angústia cedeu algum espaço à normalidade. Passamos a tarde juntos, sem grandes acontecimentos dignos de registo. Por vezes, olhava pela janela e via as sombras alongarem-se no quintal, e um desejo silencioso crescia em mim: subir ao alto do depósito, sentir a vila de cima, procurar no horizonte algo que me fizesse sentir inteiro. Mas não fui. Não me sentia com ânimo para isso, e uma parte de mim temia que, se fosse, a solidão que me rondava se tornasse ainda mais evidente.
A amizade pesa tanto quanto conforta. O Manel não me fez nada, mas sinto que algo mudou, e não consigo ignorar a sensação. Há laços que se desgastam sem motivo aparente, pequenas fissuras que surgem sem aviso, quase invisíveis. Talvez seja apenas o cansaço dos dias, talvez um desencontro invisível. E mesmo assim, penso na Dila, e a sua presença, mesmo distante, faz-me acreditar que ainda é possível encontrar ternura no meio desta inquietação silenciosa.
A noite desceu sem pressa, e deixei-me ficar junto da janela, ouvindo o eco das minhas próprias inquietações. As luzes dispersavam-se pela vila adormecida, como vaga-lumes presos em potes de vidro, e o silêncio morno envolvia tudo. Fechei os olhos e tentei ouvir o meu próprio coração, que parecia mais atento às pequenas coisas: a lembrança do riso da Dila, a brisa que mexia nas folhas do quintal vizinho. Amanhã seria um novo dia, e talvez, com ele, surgisse a resposta para perguntas que ainda não consigo formular.
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