O Peso Silencioso da Sua Ausência

Segunda-feira, 16 de Junho de 1975

O sol nasceu sem fazer alarde, filtrando-se devagar pelos cortinados, como se tivesse receio de perturbar o meu torpor. O quarto ainda guardava o peso do sono quando despertei, arrastando os minutos numa lentidão que parecia ensaiada. Lá fora, a vida já seguia o seu curso, indiferente às minhas hesitações, e eu sentia-me pequeno diante da vastidão de dias que se repetem e ao mesmo tempo se transformam.

Levantei-me e mergulhei nos livros, deixando que fórmulas e datas ocupassem o espaço da minha mente. Tentava afastar as lembranças da véspera, mas certas imagens insistiam em pairar, sombras silenciosas que se recusavam a ser ignoradas. 

A Dila surgia de repente nas entrelinhas de cada página, como se as palavras dos livros quisessem imitar a suavidade da sua voz. Cada frase, cada número ou data que eu lia parecia tingida de uma luz que só ela poderia acender. Eu via o brilho que imaginava nos seus olhos — não um brilho que se podia tocar, mas aquele que se sente, um clarão breve que invade a memória e faz tremer as pontas dos dedos. Lembrava-me da leveza dos seus gestos, do jeito com que inclinava a cabeça ao ouvir, do riso contido que se escondia atrás de palavras simples, e tudo isso ecoava em mim, repetindo-se como um sussurro insistente que não se podia calar.

Era estranho como a sua presença se insinuava sem estar, como se estivesse à margem do meu quotidiano e, ao mesmo tempo, no centro dele. Um simples gesto meu — virar a página, escrever uma linha, olhar pela janela — podia trazer à tona o reflexo de um sorriso seu, e por breves instantes o mundo parecia suspender-se, rendido à magia silenciosa de alguém que não sabia que já havia deixado marcas profundas.

Mesmo quando tentava concentrar-me nos livros, a memória dela persistia, insistente e delicada, como uma melodia esquecida que se recusa a desaparecer. E, no silêncio do quarto, sentia-me aprender lentamente a arte de esperar, de guardar dentro de mim o calor de algo que não podia tocar, mas que me ensinava a perceber a beleza dos pequenos detalhes, a suavidade de emoções que ainda não tinham nome.

Ao meio-dia saí para o liceu com o Benjamim. O dia seguiu o seu rumo habitual, as aulas desenrolaram-se sem sobressaltos. Na terceira aula, um exercício que me saiu assim-assim; não foi brilhante, mas também não foi um desastre. E, por mais que tentasse concentrar-me, o pensamento escapava para momentos que não tinham acontecido, para encontros que talvez nunca chegassem a ser, ou para sorrisos que me perseguem em silêncio.

Às seis e dez, regressei com o Benjamim e o Manel. O Benjamim, ainda a cumprir os últimos resquícios da suspensão, não podia voltar a casa antes das onze. Como um lobo sem toca, dirigiu-se ao monte, e eu, sentindo-lhe a inquietação, quis fazer-lhe companhia. Depois de lanchar, peguei na bicicleta e fui buscar o Manel para irmos juntos ao encontro dele. No monte, o tempo parecia suspenso. Falamos da escola, de pequenas aventuras sem importância, da forma como o tempo arrastava os dias sem grandes acontecimentos. Mas, mesmo entre estas banalidades, sentia uma espécie de magia discreta — a amizade a manifestar-se sem palavras, e eu a perceber que cada instante partilhado tinha o peso de um segredo silencioso.

Ao cair da noite, eu e o Manel voltamos para casa jantar. O Benjamim ficou para trás, a matar as horas até que pudesse regressar ao lar sem levantar suspeitas. Depois do jantar, saí de novo para o encontrar. Ficamos juntos apenas cinco minutos, um encontro breve, talvez até desnecessário, mas de alguma forma vital. Não falamos muito. O silêncio falava por nós, uma linguagem só nossa, onde cada gesto e cada pausa eram cheios de sentido.

Mais tarde, fui ter com o meu pai à sede do PCP. Não ficamos muito tempo. Viemos para casa pouco depois, e o resto da noite passou-se entre a televisão e a solidão do meu quarto, onde finalmente me sentei para registar o dia no diário. Enquanto escrevia, percebi que a amizade tem formas curiosas de se manifestar. Hoje, sem grandes gestos ou palavras, senti que o Benjamim precisava de saber que não estava sozinho. E eu também precisava. No fim das contas, talvez seja esse o verdadeiro valor da amizade: a presença silenciosa, sem necessidade de justificações ou promessas.

Quando finalmente me deitei, o sono demorou a vir. A minha mente vagueava pelos dias, pelos encontros, pelos silêncios, pelas memórias da Dila que se insinuavam como vento suave em tardes quentes. Pensava em tudo o que fica por dizer e, ainda assim, se compreende. Como se certas ligações estivessem além da linguagem, firmadas num pacto invisível. Um pacto que, talvez sem saber, começava a moldar o meu coração, tornando-o mais atento, mais delicado, mais silenciosamente inteiro.


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