Prisioneira

Terça-feira, 17 de Junho de 1975

De manhã, o silêncio da casa parecia mais leve — um daqueles silêncios em que até o ar respira devagar. Estudei um pouco, sem grande vontade, com a mente a fugir-me por entre as páginas do livro. O relógio marcava o meio-dia quando o Benjamim apareceu à porta. Partimos juntos para o liceu, o sol a cair-nos nos ombros como uma mão quente, empurrando-nos para o dia.

Mal cheguei, avisaram-me que a primeira aula fora cancelada. Sorri por dentro. Era como se o destino me piscasse o olho. Sem pensar, segui caminho até à paragem do trólei — onde tantas vezes o acaso se disfarçava de sorte.

E lá estava ela.
A Dila.

Encostada ao varão da paragem, o cabelo apanhado de modo descuidado e um caderno contra o peito, como quem tenta proteger um segredo.

— Não devias estar nas aulas? — perguntei, aproximando-me.
Ela levantou os olhos, e nesse instante o mundo pareceu suspender-se.
— Tive um "furo" inesperada… — respondeu-me, com um meio-sorriso. — E tu?
— Eu também. Parece que o universo conspira a nosso favor.
— Ou contra mim… — murmurou, desviando o olhar.

Houve um pequeno silêncio.
— Porque dizes isso, Dila?

Ela respirou fundo, olhando a rua como se procurasse coragem em cada carro que passava.
— A minha mãe… — começou, num fio de voz. — A minha mãe não me deixa sair de casa. Diz que ando demasiado distraída, que há rapazes que me fazem perder o juízo. — Sorriu de canto, quase triste. — Se ao menos ela soubesse que o juízo já se perdeu há muito tempo…

Olhei-a, sem saber o que dizer.
— Então… tens estado fechada em casa todo este tempo?
— Sim. Sinto-me prisioneira, percebes? — disse, fitando-me com uma franqueza que me atravessou. — Uma prisioneira dentro da minha própria vida.

A palavra ficou a flutuar entre nós, “prisioneira”, como se ecoasse nas paredes invisíveis do mundo.

— Dila… — murmurei, baixando a voz. — Eu nunca quis que te sentisses assim. Se sou a razão desse peso, digo-te agora: prefiro perder-te a saber que sofres por minha causa.
Ela abanou a cabeça.
— Não digas isso. Não é culpa tua. Eu é que… — hesitou, e os olhos brilharam. — Eu é que não sei o que fazer.

O trólei aproximou-se. O som dos travões riscou o silêncio entre nós.
— Tenho de ir… — disse ela.
— Vais voltar amanhã?
— Não sei. Depende da guarda da prisão. — Tentou sorrir, mas o sorriso morreu-lhe nos lábios.

Subiu os degraus devagar, e eu fiquei a vê-la partir, o coração apertado na garganta.
Uma rapariga que sonhava liberdade, fechada num lar que lhe roubava o vento.

Voltei ao liceu. Não ouvi uma palavra das aulas — apenas o barulho do trólei a afastar-se repetia-se na minha cabeça. Saí cinco minutos antes do fim da aula e caminhei devagar até à paragem do trólei que me levava a casa. Lanchei com o Benjamim e fomos dar de comer ao Ben-Hur, o cavalo que parecia entender-nos sem precisar de perguntas. Ele mastigava devagar, e nós calados, como dois cúmplices de uma história maior do que nós.

À noite, passei pela biblioteca itinerante. Requisitei uns livros, talvez para fingir que o mundo ainda tinha alguma ordem. Quando regressei, a televisão falava da revolução, de greves, de um país à procura de um rumo. Eu, sentado no sofá, só pensava nela — na Dila, a minha prisioneira de coração aberto, com os olhos cheios de janelas por onde só entrava o sonho.

Fechei o diário. Lá fora, o vento batia nas persianas, e a noite cheirava a despedida.


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