As linhas invisíveis do acaso

Quarta-feira, 18 de Junho de 1975

A manhã correu silenciosa, o ar imóvel como se o mundo aguardasse qualquer coisa. Estudei um pouco, mas a cabeça fugia-me das páginas, arrastada pelo pensamento nela — sempre nela. Às doze, o Benjamim e eu seguimos para o liceu. A rotina parecia a mesma de sempre, até que, ao chegar, soube que a primeira aula fora cancelada. Sorri para dentro. O acaso, às vezes, tem uma pontaria perfeita.

Saí sem pressa, deixando o murmúrio das vozes estudantis atrás de mim. A rua parecia nova, o sol brilhava com uma confiança exagerada. Fui até à paragem do trólei, lugar de tantas esperas e esperanças. Não a vi. Suspirei, e estava já a preparar-me para seguir caminho quando senti um toque leve no braço.

António! — ouvi atrás de mim, e o mundo todo se resumiu àquela voz.
Voltei-me. Era ela.
A Dila sorria, os olhos a brilhar com o reflexo do sol, o cabelo preso de forma descuidada, mas perfeita.

— Estás a fugir das aulas? — perguntou, com aquele meio-sorriso que desarma qualquer argumento.
— Não… ou talvez sim. — ri-me. — Tive sorte, a professora faltou.
— Sorte? Ou destino? — disse, inclinando a cabeça com malícia.
— Talvez o destino ande de mãos dadas com a sorte — respondi, tentando parecer mais inteligente do que me sentia.

Ficámos assim, a conversar, o tempo suspenso entre palavras e silêncios. Ela contou-me pequenas coisas — um teste, uma discussão com a irmã, o aborrecimento dos dias iguais — e eu ouvia, sem precisar de mais nada. Cada gesto dela parecia um capítulo novo.

Mas a vida, essa impaciente, não gosta de pausas longas. O trólei aproximou-se, o ar soprou quente e ela suspirou.
— Tenho de ir — disse.
— Eu sei.
— Vemo-nos amanhã? — perguntou, como se a resposta importasse menos do que a pergunta.
— Amanhã, se a sorte quiser.

Ela sorriu e partiu, deixando-me ali, com o braço ainda quente do toque dela.

Voltei às aulas, mas não ouvi palavra alguma do professor. Só me lembrava do instante em que ela me puxara o braço — um gesto simples, mas com a força de uma revelação.

À tarde, em casa, tentei distrair-me com um trabalho sobre Picasso, mas mesmo as cores que ele pintava me pareciam pálidas ao lado do olhar dela. Fechei o caderno.

E assim terminou o dia — um dia em que o acaso traçou, com linhas invisíveis, mais um esboço daquilo que chamamos amor.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »