O silêncio que diz o que o coração cala
Quinta-feira, 19 de Junho de 1975
A manhã acordou com o peso manso do estudo — aquelas horas lentas em que o corpo está sentado, mas a alma vagueia. As letras dos livros pareciam formar o rosto dela. Cada frase que lia, tinha o som do seu nome.
Ao meio-dia, o Benjamim apareceu, fiel ao ritual dos dias, e seguimos juntos para o liceu. O sol batia-nos nas costas e o ar trazia o cheiro quente das ruas, misturado com o pó fino que se levanta quando os passos querem chegar depressa a algum lado.
Pedi dispensa ao professor de ginástica — ele nem perguntou porquê. Talvez tenha visto no meu olhar a pressa de outro tipo de esforço. E fui.
Ela estava lá. Na paragem.
Encostada ao varão da paragem, com o cabelo solto, o olhar meio cansado e uma expressão que me apertou o peito — disse que lhe doía a cabeça, que o exercício de inglês tinha sido um martírio.
— “Não consigo pensar em verbos, só em ti”, murmurei-lhe a rir.
Ela fingiu que não ouviu, mas o canto da boca denunciou um sorriso.
Falámos um pouco. Nada de novo — o tempo, as aulas, a professora que ralhava demais — mas tudo com a doçura de quem se escuta só para não perder a voz do outro.
O troleicarro parou, e o mundo pareceu segurar a respiração.
— “Até amanhã?” — perguntei, sem coragem de tornar o pedido uma súplica.
— “Se o destino deixar…” — respondeu, num tom tão leve que o vento quase levou as palavras.
Ficou-me aquele eco no peito, uma nota suspensa que ainda agora não se dissipou.
Voltei para as aulas, mas nada do que se dizia me entrou na cabeça.
A professora deixou-nos sair mais cedo — e foi quase como se me tivesse libertado de uma prisão. Vim sozinho para casa. Depois, sem destino, pedalei devagar, a repetir-lhe o nome entre dentes como se fosse um poema mal decorado.
Lanchei sem fome. Fui acabar o trabalho que tinha começado, mas os pensamentos, esses, andavam noutro ofício: o de tentar perceber se o amor se mede pelos encontros ou pela ausência deles.
Jantei, vi televisão — o ruído das vozes na sala parecia distante — e depois, quando o quarto já estava mergulhado na penumbra, pensei nela de novo.
Sempre nela.
E adormeci com uma certeza: o amor, quando é verdadeiro, tem o dom de sobreviver ao silêncio.
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