O peso da espera
Sexta-feira, 20 de Junho de 1975
O dia começou com uma luz pálida a esgueirar-se pelas frestas das cortinas, e com ela entrou uma ansiedade que me acompanharia durante horas. Levantei-me mais cedo do que seria necessário, impelido por uma mistura de curiosidade, nervosismo e aquela vontade quase impossível de antecipar cada momento do que viria. O simples pensamento da Dila, mesmo sabendo que não a iria ver hoje, fez o meu coração saltar de forma descompassada, como se quisesse atravessar o peito.
Segui para a escola com o Benjamim, cada passo acompanhado de pequenos receios: e se o exercício corresse mal? E se me esquecesse de alguma coisa? Mas no fundo, cada preocupação parecia fraca diante do que se passava dentro de mim — a força da expectativa e do desejo de a ver, de sentir a sua presença mesmo que distante. Cada gesto meu era amplificado, cada olhar ao redor era uma procura silenciosa, uma tentativa de adivinhar se o dia traria qualquer sinal dela.
As aulas passaram lentas, e cada minuto parecia prolongar a espera. Tentava concentrar-me, mas a mente fugia sempre para ela — imaginava o sorriso, a forma como falava, a cadência da sua voz, a maneira como me fazia sentir vivo. Havia um medo subtil, uma mistura de timidez e reverência, como se o simples pensamento de a tocar fosse demasiado intenso para suportar.
Quando finalmente regressei a casa, senti um alívio momentâneo, mas também um vazio. Lanchei mecanicamente, os sabores não me chegavam — tudo era sombra diante da luz que a sua imagem trazia à minha mente. Entrei na oficina improvisada do meu pai para continuar a “matraca” que estava a criar; as mãos moviam-se, mas a cabeça estava noutro lugar, a imaginar encontros possíveis, a reviver cada sorriso que ela me dirigira, a ansiar por mais tempo juntos.
À noite, jantei e tentei acalmar o coração acelerado com televisão, mas cada som, cada gesto familiar me lembrava que ela não estava ali. Senti-me uma mistura de inquietação e alegria contida: inquietação por ainda não a ter visto, alegria por saber que a amava e que essa verdade pulsava no meu peito, firme e inquebrantável. Sentado à escrivaninha, escrevendo estas linhas, percebi como o amor adolescente pode ser intenso, confuso e absoluto — cada emoção amplificada, cada pensamento consumido pela pessoa que se tornou o centro do meu mundo.
Este dia, aparentemente comum, tornou-se extraordinário na forma como me fez sentir — vulnerável, vivo, ansioso e, acima de tudo, profundamente apaixonado. O amor não precisa de grandes gestos para ser sentido; basta existir, no coração, na mente, na espera silenciosa por aquilo que ainda está por vir.
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