O peso do silêncio

Sábado, 21 de Junho de 1975

A manhã começou tranquila, quase com o ritmo compassado de um relógio antigo. Fui com o Benjamim dar de comer ao cavalo; a rotina parecia simples, mas havia algo no ar que fazia o tempo hesitar. Quando o chamei ao meio-dia menos um quarto, senti uma estranha ansiedade — talvez pressentisse que o dia não seria apenas mais um.

No liceu, encontrei a Odília. Ela aproximou-se com o seu passo calmo, mas o olhar denunciava uma inquietação que a fazia parecer menor do que o habitual.

Olá… tudo bem? — perguntei, tentando soar casual, mas a voz tremia ligeiramente.

Olá… — respondeu ela, pausada. — Não muito.

Aconteceu alguma coisa? — insisti, aproximando-me um pouco.

Nada de grave, só… coisas da escola — desviou o olhar, mordendo o lábio inferior.

Posso ajudar em alguma coisa? — perguntei, embora soubesse que talvez não houvesse nada que pudesse fazer.

Não sei… — hesitou, e o seu sorriso breve quase que se perdeu. — Obrigada, mas acho que é melhor deixar para lá.

Fiquei a sentir-me culpado, como se de alguma forma tivesse contribuído para a sua angústia. Ela partiu antes que pudesse fazer mais perguntas, e o vazio que deixou era um buraco silencioso que parecia ecoar dentro de mim.

Voltei para as aulas, mas a concentração fugia-me; nos dois últimos tempos, faltei com o Benjamim, absorvido por pensamentos sobre ela, sobre o que poderia ter feito para aliviar a sua carga.

Em casa, o lanche trouxe algum alívio momentâneo, interrompido apenas pela chegada do Benjamim com o violão. As notas preenchiam o espaço, criando uma ponte entre a melancolia e uma serenidade passageira.

À noite, fomos ao cinema com o meu pai. As imagens na tela distraíam a mente, mas não consegui esquecer o peso da preocupação que a Dila carregava. Saí do cinema com a sensação de que o dia terminava, mas o silêncio dela continuaria a ressoar dentro de mim.

Quando finalmente me deitei, sozinho no quarto, senti-me esmagado por uma mistura de sentimentos que não sabia nomear. A preocupação com ela, o desejo de a proteger, a vontade de estar perto, e a certeza de que a amava mais do que tudo. Olhei para o teto e percebi que cada gesto, cada olhar, cada pequena palavra trocada se transformava em lembrança eterna dentro de mim. E, nesse instante silencioso, compreendi algo que nunca tinha admitido antes: amar alguém assim não é apenas sentir, é tornar-se vulnerável, é expor-se ao mundo e a si mesmo, é aceitar que a felicidade dela possa depender de coisas que eu nunca poderei controlar. E mesmo assim, não queria desistir.

O dia fechou-se assim: entre gestos simples, cumplicidades silenciosas e sorrisos tímidos, aprendi que o amor verdadeiro é feito de atenção, paciência e da coragem de sentir profundamente, mesmo quando o mundo parece pesar demais sobre os ombros de quem ama.


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