Saudade de Ver-te

Domingo, 22 de Junho de 1975

O dia começou com a habitual missa matinal, que fiz acompanhado do Benjamim. A luz tímida da manhã parecia aquecer o coração, mas havia em mim um vazio que nem a claridade conseguia dissipar. Pensava na Dila. Onde estaria agora? Teria saudade de mim, assim como eu sentia dela? Cada rosto que via nas ruas parecia-lhe procurar as feições, mas nunca eram as dela.

À tarde, o Benjamim e o Manuel vieram a casa. Conversamos, rimos e, por entre essas pequenas distrações, o tempo passou rápido até à hora do lanche, altura em que ambos regressaram às suas casas. O silêncio que se seguiu não era vazio; estava cheio de pensamentos e de pequenas ansiedades adolescentes. Senti novamente a ausência da Dila, uma saudade tão profunda que parecia pesar no peito. Imaginava-a a caminhar por ruas desconhecidas, a sorrir para outras pessoas sem imaginar que eu a observava de longe, desejando estar ao seu lado.

Após o lanche, decidi enfrentar algo novo: a minha primeira lição de motorizada. Senti a excitação percorrer-me as veias e o medo misturar-se com a adrenalina. Consegui dar duas voltas sem cair, mas a insegurança falou mais alto, e terminei a experiência cedo. Enquanto guardava o capacete, a mente voltou para ela — o seu sorriso, a maneira como me olhava, a leveza do seu riso. Cada pequeno detalhe parecia gravado em mim, e a falta que sentia tornava tudo mais intenso, quase insuportável.

À noite, o cinema trouxe o aconchego do conhecido. No primeiro intervalo, encontrei o Manuel. Verifiquei os nossos lugares e percebi que, por um engano, ele se tinha sentado ao meu lado. O riso silencioso desta coincidência trouxe-me algum conforto, mas ainda assim, cada gesto e cada palavra recordava-me a ausência da Dila. Quando o filme terminou, despedi-me dele e regressei a casa, sentindo que o domingo se fechava com a leveza de uma tarde de verão, embora o coração ainda guardasse a inquietação própria da adolescência.

Ao deitar-me, no silêncio do meu quarto, deixei que os pensamentos fluíssem. Percebi que a saudade não era apenas ausência, mas desejo, esperança e medo entrelaçados. O que sinto por ela não é apenas amor; é um vazio que só a sua presença consegue preencher, é a certeza de que há partes de mim que só se revelam quando penso nela. E, mesmo com toda a distância que nos separa, sei que cada gesto, cada olhar furtivo, cada palavra trocada, forma a teia invisível que liga os nossos corações. Hoje aprendi, mais uma vez, que a vida se mede não pelo tempo, mas pelo amor que se sente e pelo silêncio que se partilha.


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