Ausência dolorosa
Segunda-feira, 23 de Junho de 1975
Hoje, ao encontrar-me com a Dila, a realidade caiu sobre mim com um peso quase físico. Ela disse-me que não passaria o S. João fora, e uma frustração intensa enrolou-se no meu peito. Era como se todo o ar à minha volta tivesse perdido densidade, deixando-me à deriva num vazio silencioso. A simples ideia de não a ter por perto, mesmo que por um breve instante, fez com que os minutos se arrastassem com uma lentidão cruel.
Apesar do meu desânimo, não resisti a dizer-lhe:
— Então… não vais sair para o S. João?
Ela olhou-me com um misto de pesar e determinação, desviando ligeiramente o olhar:
— Não… não posso. E… não é por não querer… é por… bem, tu sabes, os meus pais…
O nó na garganta apertou-se-me. Quis abraçá-la, quis dizer-lhe que não importava, que eu estaria ali, mas as palavras ficaram presas no silêncio entre nós. Apenas murmurei:
— Compreendo… mas… vou sentir a tua falta.
Ela sorriu, pequeno, tímido, quase escondido, e respondeu baixinho:
— Também vou… mas prometo que no domingo… — hesitou, segurando a minha mão por um instante — …estarei contigo.
Depois de a deixar partir percorri a rua por instinto, mas cada passo parecia conduzir-me para mais longe do calor da sua presença. A tristeza misturava-se com a impotência: queria poder mudar as circunstâncias, queria poder fazer algo para que ela estivesse comigo, mas tudo escapava-me. A frustração crescia, e com ela uma sensação de perda que não podia ignorar. Cada memória de sorrisos trocados, de palavras leves e risos compartilhados, transformava-se em um eco doloroso dentro de mim, recordando-me o que não poderia ser neste dia.
Sentado à mesa, escrevendo estas linhas, senti-me mais consciente da fragilidade dos momentos que nos pertencem. A ausência dela tornou-se tangível, um peso que parecia impregnar cada espaço do quarto, cada sombra e cada som da casa. As horas passaram-se lentas, e eu permaneci apegado à lembrança de tudo aquilo que queria vivenciar, e que hoje me fora negado.
Ao refletir sobre o dia, percebo que a frustração não é apenas uma emoção passageira; é um lembrete cruel de que nem tudo podemos controlar, nem tudo conseguimos agarrar. E talvez seja precisamente neste conflito entre o que desejamos e o que a vida nos permite que se esconda a essência da experiência humana: aprender a lidar com a ausência, a valorizar os momentos de presença e a reconhecer, mesmo na perda, o que faz o coração bater com intensidade.
Hoje aprendi que o amor não é apenas alegria, mas também um exercício de resistência: suportar a distância, suportar a ausência e ainda assim sentir, no fundo do peito, que cada instante de espera, de frustração e de perda, tem o poder de nos tornar mais conscientes daquilo que realmente importa.
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