A Sombra da Saudade

Terça-feira, 24 de Junho de 1975

A manhã nasceu cansada, como se o próprio dia tivesse chorado durante a noite. Acordei antes do sol, mas o corpo pesava-me — talvez não fosse o corpo, talvez fosse o coração. A ausência da Dila tem esse poder: ocupa tudo, até o ar parece diferente, mais denso, mais difícil de respirar.

Fui com o meu pai ao rio Douro. A corrente deslizava serena, e eu seguia-a com o olhar, como quem procura um sentido no movimento das águas. Vi nela reflexos do que perdi — ou talvez do que nunca tive por completo. O brilho da superfície lembrava-me os olhos dela, e o murmúrio da água parecia repetir o nome que não me atrevi a pronunciar em voz alta. O silêncio do meu pai fazia eco ao meu próprio silêncio, aquele que só o amor não correspondido consegue criar.

À tarde, fui com o meu cunhado a Couce. Duas vezes estive à beira do perigo: uma, quando escorreguei ao atravessar o rio e me agarrei à rocha como quem se agarra à última esperança; outra, quando a porta do carro se abriu de repente e o vento quase me arrancou do assento. Mas, mesmo ali, no instante breve em que a vida se desequilibrou, o pensamento foi sempre o mesmo — “e se nunca mais a vir?”. É estranho como o medo da morte é pequeno diante do medo da ausência.

O dia arrastou-se lento, e a noite chegou sem consolo. Sentei-me à janela. O céu estava cheio de nuvens, mas por entre elas vislumbrei um clarão — juro que, por um momento, acreditei que era ela. Imaginei-a na sua varanda, quieta, com o rosto voltado para a rua, talvez a pensar em mim. O tempo, esse inimigo que se esconde nos minutos, parecia parar, e o silêncio tornava-se uma forma de diálogo.

Hoje percebi que a ausência da Dila é uma ferida que não sangra, mas dói. Dói na alma, no corpo, no que sou e no que tento ser. Dói em cada respiração que a não traz até junto de mim. E contudo, essa dor é também o que me mantém vivo — porque amar é isso, não é? É morrer devagar sem desaparecer de todo. É olhar o vazio e ver nela todos os rostos, todas as promessas, todos os “talvez” que nunca se disseram.

A saudade não é lembrança — é presença no tempo errado. E esta noite, ao deitar-me, sei que, mesmo sem ela aqui, há qualquer coisa dela que vive em mim: um eco, uma brisa, uma ternura que não passa. A Dila é ausência, mas é também tudo o que resta quando o mundo se apaga.


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