O silêncio das promessas
Quarta-feira, 25 de Junho de 1975
O dia nasceu pesado, como se o céu tivesse dormido mal. Acordei com uma estranha sensação de vazio — não de ausência, mas de distância. Aquela distância que não se mede em metros, mas em silêncios.
Fui andando pelas horas sem grande vontade de falar com ninguém. Os meus colegas, na sua habitual euforia, pareciam pertencer a outro mundo, um onde a Dila nunca existiu.
Senti-lhe a falta em tudo. No cheiro do ar depois da chuva, na maneira como a luz se deitava sobre as pedras do caminho, até no eco das vozes que vinham da rua. Tudo me parecia uma lembrança dela. E, ao mesmo tempo, tudo me lembrava que ela não estava.
Ao cair da tarde, o Benjamim passou por mim e tentou animar-me com a conversa de sempre — sobre os treinos, as novidades do liceu, as raparigas novas que tinham aparecido. Eu ouvi-o, mas as palavras batiam-me no peito e voltavam para trás, como se o som não tivesse força para entrar.
Mais tarde, sentei-me junto ao muro onde costumávamos falar. Fiquei ali um bom bocado, de olhos perdidos no chão, a desenhar riscos com uma pedra, como se cada traço fosse uma tentativa de a chamar.
E juro que, por um instante, pensei ouvir o seu riso ao longe. Levantei-me de repente, o coração a bater, mas era apenas o vento a brincar comigo.
À noite, fechei-me no quarto e fiquei a olhar para a fotografia dela. Há nela uma serenidade que me inquieta — como se soubesse algo que eu ainda não descobri. Talvez o amor seja mesmo isso: uma promessa que o tempo faz e raramente cumpre.
Adormeci com a imagem dela a dissolver-se no escuro, e o último pensamento que me ficou foi simples e cruel:
— Será que ela também sente este mesmo vazio quando pensa em mim?
« Página anterior / Índice / Página seguinte »