O silêncio entre as palavras
Quinta-feira, 26 de Junho de 1975
O dia nasceu com uma luz baça, dessas que não prometem nada e, no entanto, trazem tudo. Encontrei-me com a Dila — como quem regressa a casa depois de uma ausência longa demais. O tempo pareceu deter-se nesse instante breve em que os nossos olhos se cruzaram. Não foi preciso dizer muito; havia nas entrelinhas um entendimento antigo, um pacto de silêncio entre dois corações que ainda aprendem o idioma do amor.
— Estás diferente hoje… — disse-lhe eu, num tom quase sussurrado.
— Diferente como? — perguntou ela, fingindo leveza.
— Como quem pensa mais do que devia.
Ela riu-se, baixinho, e olhou para o chão.
— Às vezes penso demais, é verdade… mas pensar em ti já é costume.
Ficámos assim, a partilhar um sossego cúmplice, sem saber se o mundo à volta ainda existia. O troleicarro chegou e interrompeu-nos, como um relógio que exige pontualidade ao coração. Ela subiu o degrau e, antes de desaparecer, olhou-me uma última vez — um olhar simples, mas inteiro, que dizia o que as palavras não sabiam.
Voltei para as aulas, onde a vida retomou o seu tom cinzento. Entreguei o trabalho sobre o Picasso, mas os traços e as cores do pintor pareciam longes de mim — porque a minha arte, nesse dia, tinha um só nome: Dila.
Regressei a casa sozinho. Lanchei sem apetite, jantei sem alegria. À noite fui com o meu pai ao café, onde o tempo se arrastava como uma conversa sem assunto. Voltei cedo, procurei refúgio na televisão, mas nem as imagens em movimento conseguiram calar a inquietação.
Agora escrevo, meu diário, com a certeza de que o amor é isto — o silêncio entre as palavras que não se dizem, o vazio que se enche só com a lembrança do seu olhar.
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