A Casa do Silêncio
Sexta-feira, 27 de Junho de 1975
O dia começou cinzento, como se o céu tivesse decidido partilhar a minha solidão. Não havia pressa em nada, mas uma inquietude silenciosa me acompanhava: a ausência da Dila pesava-me no peito como uma sombra que não se queria dissipar. Cada passo que dava parecia ecoar na rua deserta, lembrando-me de que o seu riso, o seu olhar, estavam longe, quase inalcançáveis.
Passei horas a vaguear por caminhos conhecidos, onde tantas vezes a tinha encontrado, mas hoje os lugares estavam vazios, como se guardassem apenas memórias minhas. O vento perpassava pelos ramos das árvores e parecia sussurrar o seu nome. Fechei os olhos, tentando imaginar o seu sorriso, o som da sua voz a quebrar o silêncio do dia. Mas só sentia o vazio, o espaço que ela ocupava e que agora estava deserto.
À tarde, sentei-me perto do rio, observando a água correr. Cada ondulação parecia repetir a mesma pergunta silenciosa: onde estás? E eu não tinha resposta. As lembranças de pequenos momentos, gestos, olhares furtivos, vinham e iam como se o tempo brincasse comigo. A saudade era uma presença viva, uma dor doce que apertava o coração e me lembrava, sem piedade, de tudo o que ainda não tinha sido dito, de tudo o que não podia tocar.
Mesmo ao regressar a casa, a sensação de ausência não me largou. As divisões da casa pareciam maiores, mais frias. E hoje, sentado a escrever estas linhas, percebo que a solidão não é apenas estar só, mas sentir-me longe daquilo que mais amo.
A ausência da Dila ensina-me que o amor cresce na espera e na imaginação, que a saudade é um espaço sagrado onde o coração aprende a conhecer-se, e que cada momento de solidão é, paradoxalmente, um encontro comigo próprio.
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