O peso da despedida
Sábado, 28 de Junho de 1975
O dia começou com a ansiedade a pulsar em cada passo meu. Sabia que a Odília estaria na escola, mas a realidade cruel era que não a veria senão em circunstâncias formais, quando fosse matricular-se ou consultar as notas. Tudo o resto se tornava incerto, frágil, uma corda esticada entre o que desejava e o que era inevitável.
Quando finalmente nos encontramos, o tempo pareceu hesitar. Ela sorria, mas havia uma sombra de compreensão no olhar que me dizia que ambos sabíamos que o momento era breve, que algo estava prestes a mudar. Caminhamos lado a lado, mas as palavras pareciam fugir-nos.
— Talvez não nos vejamos na segunda-feira… — comecei, a voz trémula, quase um sussurro.
Ela desviou o olhar, mordendo o lábio inferior, como se tentasse adiar o inevitável.
— Sei… — respondeu finalmente, com a voz baixa, carregada de uma tristeza que me atravessou. — Mas não deixa de ser apenas um dia… talvez possamos… escrever-nos, ou… ver-nos depois, quem sabe?
Fiquei em silêncio, absorvendo cada sílaba. As mãos tremiam-me, e a vontade de a abraçar e segurar a eternidade naquele instante era quase insuportável.
— Eu… queria dizer tantas coisas… — comecei, engolindo o nó na garganta. — Mas parece que nenhuma palavra chega… é como se o tempo estivesse contra nós.
Ela aproximou-se, tocando suavemente o meu braço, e olhou-me nos olhos, com uma intensidade que queimava.
— António… não fiques preso ao que não podemos mudar. Guarda contigo os momentos que tivemos, eles vão ser mais fortes que qualquer ausência.
O silêncio voltou, mas desta vez não era vazio. Era cheio do que ficou por dizer, do que se sentiu sem precisar de palavras, do peso de um amor que se recusava a desaparecer, mesmo diante da iminência da separação. Ficamos assim, lado a lado, sentindo a aproximação e a distância ao mesmo tempo, como se o mundo inteiro tivesse parado para nos permitir aquele instante que sabia ser último.
Ao regressar a casa, cada passo parecia arrastado pelo peso da saudade. Sentei-me à escrivaninha, mas não consegui escrever de imediato. As lembranças do seu sorriso, da suavidade da sua voz, da forma como segurava os meus olhos como se visse a minha alma, ocupavam toda a minha mente.
Refleti sobre a angústia que a perda provoca: não é apenas a ausência física, mas a certeza de que algo essencial se afasta, levando consigo uma parte de nós mesmos. É nesse vazio, nesse espaço onde as palavras falham, que aprendemos o valor da presença e o silêncio do coração que ama. A perda dói, mas também ensina. Hoje aprendi que amar significa segurar na memória, proteger cada instante e deixar que o coração se acostume, lentamente, a uma ausência que dói mais do que qualquer despedida formal.
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