O Abraço da Solidão

Domingo, 29 de Junho de 1975

Hoje passei a manhã e a tarde toda em casa, imerso num silêncio que só a espera de alguém que amamos consegue criar. Dediquei-me a escrever uma carta para a Dila, cada palavra escolhida com o cuidado de quem teme que o coração se torne demasiado evidente. Na carta, tentei confessar o que até agora só o meu olhar ousava revelar: o quanto a sua presença transforma os meus dias, o quanto o seu sorriso me acalma e me desperta ao mesmo tempo, e como cada gesto seu se grava na memória de forma indelével.

Escrevi sobre as pequenas coisas que admiro nela — a forma como inclina a cabeça quando pensa, a maneira como o seu riso parece iluminar tudo à volta, a sua lealdade e simplicidade, que a tornam única. Tentei explicar que a minha amizade por ela sempre foi sincera, mas que, ao mesmo tempo, o meu coração insiste em sentir algo mais profundo, algo que não se pode conter. Cada frase era uma batalha entre a coragem de mostrar-me por inteiro e o medo de a assustar.

Quando a noite chegou, fui ao cinema, procurando algum alívio para a inquietação que me consumia. Depois, com o Benjamim, fomos até casa da Dila na expectativa de a ver, mas ao passarmos por sua casa estava tudo silencioso e vazio, percebemos que não podia ser forçada a sua presença. Voltei, consciente de que apenas o tempo e o acaso poderiam proporcionar-me o encontro que eu desejava.

O que sobrou deste domingo foi o silêncio da minha própria companhia, o coração apertado pela ausência dela, mas também aquecido pela esperança que se esconde na lembrança de cada gesto, de cada sorriso. Senti-me só, e ao mesmo tempo, mais ligado ao que sinto por ela do que nunca. A carta ficou guardada, como um fragmento da minha alma, pronta para lhe chegar, e o dia acabou com a certeza de que a saudade é um abraço invisível que nos envolve quando a presença daqueles que amamos nos escapa.

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