O peso da ausência

Segunda-feira, 30 de Junho de 1975

O dia começou com uma esperança tênue, quase frágil, que parecia sustentar-me em cada passo. Esperei pela Odília, ansioso, o coração batendo mais rápido a cada minuto que passava. Uma hora, duas horas… e a ausência dela tornava-se cada vez mais pesada, como se cada segundo arrastasse consigo um pouco da minha alma. Faltando à aula, senti um vazio estranho: o mundo continuava a girar à minha volta, mas eu permanecia preso no espaço entre a expectativa e a frustração.

O desapontamento apertava-me o peito, uma mistura de tristeza e impotência. Cada pessoa que passava parecia levar consigo um lembrete daquilo que não acontecera: o riso dela, o brilho nos olhos, o toque que nunca veio. Era como se a cidade inteira conspirasse para me recordar da distância que nos separava. Sentei-me em silêncio, tentando compreender a razão de tanta dor, mas o pensamento dela persistia, insistente e doce, mesmo na ausência.

Mais tarde, forcei-me a comparecer às aulas, uma tentativa vã de afastar o peso do desânimo. Mas a lembrança do que podia ter sido não me largava. Só ao final do dia, quando o Benjamim e eu nos dirigimos à escola de artes marciais, encontrei algum alívio na disciplina física: o esforço do corpo parecia, por breves instantes, dissipar a angústia que a ausência da Dila me causava. Cada movimento era uma tentativa de exorcizar a saudade, cada golpe uma lembrança de que, apesar de tudo, havia algo que eu podia controlar.

À noite, ao passar pela casa dela, senti novamente o frio da distância. Vi a sua janela iluminada, mas ela não estava lá. O coração apertou-se, e uma tristeza silenciosa encheu-me de uma certeza dolorosa: não a voltaria a ver tão cedo. Talvez dias, talvez semanas, talvez algo mais… e essa incerteza corroía-me de dentro para fora.

Deitei-me mais tarde, sozinho, pensando naquilo que me faltava. A ausência dela era agora um eco constante, uma lembrança de que o mundo podia continuar a girar, mas a minha vida permanecia suspensa naquele instante de vazio. O amor que sentia por ela não diminuía; ao contrário, cada momento de espera parecia intensificá-lo. E no silêncio do meu quarto, percebi que, por mais que quisesse, não havia consolo imediato. O dia terminava assim: com o peito pesado, os pensamentos confusos, e a dolorosa consciência de que a Dila permanecia distante, e eu, impotente, apenas a amava em silêncio.


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