Entre Silêncios e Bancos de Madeira
Quarta-feira, 30 de Abril de 1975
O dia nasceu envolto numa névoa ténue, dessas que deixam os contornos das árvores meio borrados, como se o mundo ainda estivesse a acordar. O ar parecia mais espesso, quase a pedir que se respirasse devagar, e eu, ainda com restos de sono nos olhos, saí de casa a sentir o fresco da manhã a cortar-me a cara. O caminho até ao liceu foi o de sempre: o chilrear dos pardais como banda sonora e o ronronar distante dos carros que passavam a caminho da cidade.
As aulas arrastaram-se, normais, sem nada de especial. Mas como não tive as três últimas, acabei por sair mais cedo com o Benjamim. Era como uma pequena vitória escondida no meio da rotina: poder ganhar tempo ao relógio.
Já estava em casa há uns bons trinta minutos, a fingir que fazia coisas importantes, quando os planos do dia deram uma volta inesperada. O Benjamim apareceu, e atrás dele o Manuel. Éramos três, e três é sempre a receita certa para a aventura. Decidimos ir dar de comer ao cavalo, e depois seguimos até casa do Manel para buscar uns bancos, daqueles de madeira rija e peso de chumbo, que iriam parar a casa da Dila.
Carregá-los foi quase uma penitência. Os bancos pesavam como se guardassem dentro toda a história das árvores de onde vieram. Parávamos de vez em quando, ríamos à força, atirávamos piadas baratas só para esquecer o peso. O suor colava-nos as camisas às costas e o caminho parecia não ter fim. E foi quase no fim desse calvário que a Dila apareceu, pronta a ajudar. Trazia aquele jeito decidido que sempre desarma, mas nós, armados em heróis, dissemos que já não valia a pena.
Quando finalmente chegámos à porta, nasceu o dilema: entrar ou não entrar? Ficámos parados, como se estivéssemos à porta de um segredo. O Manel, menos hesitante, entrou logo, e eu e o Benjamim ficámos cá fora, encostados ao muro, a falar de banalidades. O tempo arrastava-se devagar, até que o Manuel reapareceu e nos chamou para levarmos os bancos lá para dentro.
A Dila, farta das nossas indecisões, agarrou num dos bancos e tentou levá-lo sozinha. Vi-lhe o esforço nos olhos semicerrados, os braços tensos, e quase no mesmo instante percebi que se ia desequilibrar. Eu e o Benjamim trocámos um olhar e, sem precisar de palavras, corremos para ajudar. Tirei-lhe o banco das mãos e, lado a lado com o Benjamim, carregámo-lo até à cozinha.
Assim que passámos a soleira da porta, um arrepio percorreu-me as costas. O ar dentro da casa parecia mais pesado, como se houvesse coisas invisíveis a pairar. A mãe dela estava sentada à mesa, imóvel, os olhos postos em nós. Não disse nada. Limitou-se a observar, como quem mede a alma dos que entram. O silêncio dela parecia durar uma eternidade. Eu temi que viesse uma repreensão, uma frase cortante, ou pior ainda, uma pergunta directa à Dila. Mas não. Apenas agradeceu, com uma voz lisa, sem ponta de emoção. Murmurei um "de nada" apressado e saí depressa, sentindo-me como quem escapa a um julgamento silencioso.
Cruzei um olhar rápido com a Dila. Não dissemos nada. Ficou no ar qualquer coisa, talvez o peso das palavras que nunca se disseram, ou apenas o cansaço de um dia puxado.
À noite voltámos a passar por lá. A rua estava mergulhada num silêncio que só os grilos e o ladrar de um cão ousavam quebrar. A escuridão parecia guardar segredos, e nós, rapazes meio perdidos entre a infância e aquilo que vinha a seguir, caminhávamos nela como quem espera que o futuro se revele de repente.
E assim terminou o dia. Fiquei com a sensação estranha de que não são só as acções que mudam o rumo das coisas, mas também os silêncios. Às vezes o destino não se escreve com palavras, mas com pausas, com olhares, com aquilo que nunca chega a ser dito. Talvez seja isso crescer: aprender a viver também com o que fica suspenso no ar, invisível mas tão real como tudo o resto.