O Muro e o Silêncio

Terça-feira, 29 de Abril de 1975

O despertar trouxe-me de volta à realidade com a mesma suavidade preguiçosa dos dias comuns. O sol, hesitante, espreitava entre as cortinas, espalhando uma luz dourada que parecia não querer incomodar o quarto. O movimento na casa começava a mexer-se devagarinho: passos arrastados no corredor, o chiar da torneira da cozinha, e um qualquer tilintar de loiça a anunciar que o mundo lá dentro também acordava. Lá fora, as janelas iam-se abrindo como pálpebras sonolentas; ouvia-se o rodar das primeiras bicicletas, o estalar de portões a fechar e até o pregão longínquo de um homem que vendia laranjas na esquina. Tudo tão igual e, ao mesmo tempo, tão vivo.

Na escola, o tempo caminhava lento, como se arrastasse correntes. As aulas sucediam-se num enfileirado aborrecido de vozes de professores, giz a riscar o quadro e olhares perdidos. As minhas mãos rabiscavam setas e frases soltas no caderno, mas a cabeça estava longe dali. Andava a vaguear num sítio só meu: o lugar onde ela existia. A Dila. O pensamento corria atrás da hipótese de a ver, de ouvir o som da sua voz, de encontrar, mesmo que por acaso, aquele instante mágico em que o mundo se resumia apenas a nós dois.

Foi só ao cair da noite que a monotonia se quebrou. O plano era simples: eu e o Benjamim encontrávamo-nos às nove horas. Mas ele, como sempre, atrasado. Esperei um quarto de hora, com o humor a azedar, a olhar de um lado para o outro como quem espera um milagre. Farto da espera, voltei a casa e avisei a minha mãe:
— Mãe, se o Benjamim aparecer, diga-lhe que fui andando.
Ela acenou com a cabeça, os olhos pregados no bordado que lhe prendia os dedos, sem dar grande importância ao meu desabafo.

No caminho, o meu cunhado apanhou-me a passar à porta de sua casa com a sua boa disposição:
— Então, Tono, essa tromba de enterro?
— O Benjamim. Disse que vinha ter comigo e até agora nada…
— Esse rapaz perde-se mais do que os eléctricos de Lisboa — respondeu com um meio sorriso.

Ainda trocávamos duas palavras quando, finalmente, o fugitivo apareceu.
— Então? Já ia chamar os bombeiros para te darem como desaparecido! — resmunguei, meio a rir.
— Desculpa lá, tive de ajudar a minha mãe… Mas vamos lá!

Seguimos, descontraídos, até às traseiras da casa da Dila. Era como entrar noutro território, mais carregado de nervos e sonhos. Conversávamos sobre disparates, mas de repente senti uns olhos a pesarem-me nas costas. Virei-me devagar, e gelou-me o sangue: era a mãe dela.
— Anda devagar — murmurei ao Benjamim, fingindo calma.
Ele percebeu logo e seguimos como se nada fosse, só acelerando o passo quando já não havia risco de sermos apanhados.

Voltamos depois, cautelosos, até ao muro da casa. Ali ficamos, em silêncio cúmplice, colados à penumbra. Do outro lado, a cozinha respirava vida: risos abafados, pratos pousados, a voz da Dila a soltar-se em fragmentos que vinham até nós como música proibida. Por um instante, consegui vê-la ao fundo, iluminada pela fraca luz da lâmpada. O meu coração bateu como um tambor — e eu fiquei ali, imóvel, a beber cada gesto, cada sombra sua.

Com o tempo, a casa foi-se calando. Um a um, os sons apagaram-se, até só restar o rumor da noite. Foi o sinal. Demos a aventura por terminada, e eu guardei o que tinha visto e sentido.

Ao regressar, com o frio a arrepiar-me a pele, dei por mim a pensar que talvez crescer fosse isto: a mistura de medo e fascínio, de nervos e desejo, de esperar muito por quase nada e, ainda assim, achar que esse quase nada valia mais do que o mundo inteiro.