Entre Luzes e Sombras
Segunda-feira, 28 de Abril de 1975
O despertar chegou sem aviso, empurrado pelo som distante do quotidiano a recomeçar lá fora, como se a Vila tivesse combinado acordar de propósito antes de mim. A manhã arrastou-se sem pressa, igual a tantas outras segundas-feiras, onde até o ar parecia mais pesado. O rosto fechado dos colegas, o professor de Matemática com a sua paciência quase bíblica, e eu, sentado, a preencher uma folha de apontamentos que parecia nascer e morrer em branco, apesar de coberta de números. O tempo escorria como areia, sem se deixar segurar.
No intervalo grande, saí para respirar. O liceu ao lado, onde estudava a Dila, impunha-se como uma promessa silenciosa. Estava tão perto que quase a podia imaginar a caminhar pelos corredores, e tão longe que parecia inalcançável. Havia metros de distância apenas, mas dentro de mim essa distância era um oceano. Pensei em arranjar um pretexto qualquer para dar uma volta por lá, só para fingir que o acaso tinha dado uma mãozinha ao destino. Mas e se não a visse? E se a visse e não conseguisse dizer nada? Só de pensar nisso sentia o coração a acelerar como se tivesse corrido uma maratona. Acabei por ficar encostado ao gradeamento do pátio, a olhar para o nada e a inventar desculpas que nunca chegaria a usar.
À noite, tinha um plano que me parecia mais corajoso: encontrar-me com o Benjamim para irmos até casa dela. Combinamos às nove em ponto, mas já sabia que ele chegaria tarde — fazia parte da sua maneira de viver. Não me zanguei, nem me surpreendi. Era quase um ritual.
Seguimos caminho como dois conspiradores em missão secreta. Ao chegarmos à rua dela, tentamos encontrar um lugar discreto onde pudéssemos esperar. Encostamo-nos ao muro que ficava ao lado da cozinha, atentos a cada som, a cada clarão de luz. Lá dentro, vozes indistintas, e entre elas uma que me fez encolher os ombros: a da mãe da Dila. Havia naquele timbre uma autoridade que sempre me meteu respeito, como se pudesse adivinhar exactamente o que eu estava a pensar.
De repente, a luz da cozinha apagou-se. O meu sangue gelou, como se fosse eu o intruso apanhado em flagrante. A porta fechou-se com um estalido seco e, pouco depois, passos indistintos subiram as escadas. Segui cada som com os olhos, como se pudesse ver através das paredes. Quando a luz da varanda se acendeu, o coração bateu-me mais depressa. Ela sabia. Sabia que estávamos ali. Havia nisso uma espécie de milagre: não ser ignorado já me parecia uma vitória.
— Achas que ela vai aparecer? — perguntou o Benjamim, esfregando as mãos com impaciência.
— Não sei… Mas se acendeu a luz da varanda, é porque nos viu. Talvez esteja a pensar se desce ou não.
— Ou então é um aviso para nos pormos a andar… — respondeu ele, sempre mais prático do que eu.
Ainda assim, recusei-me a desistir. Dei a volta até à frente da casa, onde a sala de estar se oferecia como um palco iluminado. Através da janela, vi a mãe dela. O olhar severo daquela mulher, mesmo à distância, obrigou-me a hesitar. Fiquei parado, dividido entre a esperança e o medo, até que a persiana começou a descer lentamente, como se fosse um pano de teatro a encerrar a cena. Nesse instante, percebi que não haveria espectáculo nenhum naquela noite.
Suspirei fundo. O Benjamim riu-se e deu-me uma palmada no ombro.
— Vá, anda. Mais vale irmos andando antes que a tua futura sogra nos corra daqui à vassourada.
Voltamos para casa devagar, como soldados derrotados mas ainda vivos. Não houve conversa, não houve confissão, apenas aquele silêncio que só a frustração sabe construir.
Já deitado, peguei no diário. Quis eternizar cada gesto, cada luz acesa e apagada, como se o simples acto de escrever fosse a minha única forma de estar perto dela. No fim, percebi uma coisa: o amor, na minha idade, não se mede pelas vitórias, mas pela coragem de tentar, mesmo quando tudo parece impossível. Talvez seja isso que me alimenta — esta mistura de esperança e medo que me mantém vivo, como se cada noite fosse uma batalha pequena dentro de um sonho maior.