A Chuva e o Guarda-Chuva

Domingo, 27 de Abril de 1975

O dia nasceu sem pressa, como se o próprio céu tivesse acordado a meio de um bocejo. O azul parecia lavado, meio desbotado, e a luz entrava tímida pelas frinchas da persiana, pousando no soalho como quem pede licença. Fiquei uns instantes deitado, meio preguiçoso, ainda agarrado a sonhos que já não lembrava, mas que deixaram uma estranha sensação de confiança no peito, como se algo de bom estivesse mesmo à espreita.

Hoje aproximei-me mais um pouco da pessoa que mais amo.

Tinha combinado com o Benjamim uma tarde de música. Ele apareceu tarde, claro, com o violão às costas e aquele sorriso de quem acha que o relógio é só enfeite. Seguimos sem pressa pelas ruas quentes, o empedrado a restolhar debaixo dos nossos passos, e subimos ao monte. Entre notas tortas e afinações sofridas, o tempo escorria sem peso. Até que o Manel chegou, sempre cheio de palavras, e logo a paz do lugar se quebrou. A conversa desviou-se, perdeu-se a magia, e decidimos sair.

O Manel disse, de repente, que não ia voltar lá hoje. Aquelas palavras bateram-me como murro no estômago. Eu não queria ficar preso ao silêncio da minha casa. Fiz-me de indiferente:
— Eu vou sozinho, então.
Ele encolheu os ombros, sem dar importância.

Horas mais tarde, pelas sete, o inesperado: o Manel aparece-me à porta com ar maroto.
— Mudei de ideias. Vamos.

Partimos.

Do sítio onde nos instalamos, conseguíamos ver parte da frente e o lado da casa dela. Eu, sempre prevenido, levava os binóculos, como quem leva a própria alma colada ao vidro. O tempo esticava-se como elástico, cada minuto a arrastar-se. Até que três vultos surgiram. O coração disparou sem aviso. Fixei melhor: era ela. A Dila. Ao lado, a irmã. O terceiro rosto era estranho.

E então… ela olhou. Não foi engano. Olhou discretamente na minha direcção. Um arrepio atravessou-me de cima a baixo. Ela sabia que eu estava ali. Eu, parado, ridículo talvez, mas vivo como nunca, alimentado apenas pelo brilho daquele instante.

Depois sumiu-se.

A chuva começou a cair, primeiro mansa, depois violenta. O Manel resmungou:
— Estás maluco se achas que eu fico aqui a levar com isto!
E foi-se embora, encharcado de má vontade.

Eu fiquei. Sozinho. A água a escorrer-me pelo pescoço, os sapatos a colarem-se ao chão, mas o olhar fixo naquela casa. E então… ela voltou. Por um instante breve, voltou. Encontrou-me outra vez. O tempo parou. O mundo inteiro pareceu encolher até restar só aquele olhar. Mas tão depressa como apareceu, desapareceu de novo.

Exausto, deixei-me vencer. Voltei a casa, derrotado. Mas quando cheguei… a chuva parou. Como um louco, agarrei num guarda-chuva e voltei a sair.

Aproximei-me da casa dela e abriguei-me numa garagem, olhando o céu cinzento. O coração batia-me como um tambor. Foi então que a vi ao longe. Vinha com uma senhora e com o irmão, o Pedro. Ele reconheceu-me e chamou-me. Quase que me faltou o ar.

Segui-os, não consegui evitar. Estavam numa sapataria, abrigados. Cheguei devagar. O coração quase me saía pela boca. E a Dila, com um sorriso que me desmontou, disse:
— Podes chegar-te, não há perigo.

A senhora não era a mãe. A conversa foi simples, até natural demais para o turbilhão que eu sentia. Falei da chuva, ela riu-se ajeitando o cabelo molhado. Cada palavra dela era música, cada gesto uma prova de que eu não estava a sonhar.

— Se quiserem, posso acompanhar-vos até casa — arrisquei.
Ela olhou-me de lado, meio divertida:
— E tu? Não devias estar a caminho da tua, em vez de andares por aí à chuva?
Soltei uma gargalhada.
— Talvez… Mas quem disse que eu não tinha um motivo para estar aqui?
Ela corou. E desviou o olhar.
— Sempre misterioso…

O Pedro, inocente, cortou o momento:
— Ele tem guarda-chuva! Pode levar-nos!

Ela sorriu, rendida.
— Sendo assim, aceitamos.

Seguimos juntos, lado a lado, debaixo do meu guarda-chuva. O som da chuva misturava-se com o ritmo dos nossos passos. O mundo parecia reduzir-se a esse pequeno espaço de abrigo, partilhado entre nós.

Ao chegar à porta da casa dela, paramos. O silêncio valeu mais que mil palavras.
— Obrigada — disse, tão baixinho que quase se perdeu no ar da noite.

Eu quis responder, dizer tudo o que me incendiava por dentro, mas a voz falhou. Apenas a olhei. E ela desapareceu na escuridão, como uma estrela que se apaga depressa demais.

Fiquei parado, dividido entre a alegria de a ter acompanhado e a dor de a perder outra vez. Fui ao cinema, mas o filme passou diante dos meus olhos como sombras sem cor. A minha mente estava presa na chuva, no riso, no olhar dela.

De regresso ao quarto, o silêncio recebeu-me como um confidente. Escrevi no diário até que as palavras me caíram da mão. A madrugada entrou sorrateira, trazendo uma nova luz pelas frestas da persiana.

E pensei: há dias que são tempestade e abrigo ao mesmo tempo. Hoje percebi que o amor é isso — o desconforto da espera, o arrepio da surpresa, e a coragem de ficar à chuva só para ver alguém sorrir.