O Dia em que o Mundo Mudou

Sábado, 26 de Abril de 1975

Acordei sobressaltado, como se alguém me tivesse sacudido o sono à força. Havia um rumor estranho na casa, vozes abafadas vindas da sala, um murmúrio que se misturava com passos apressados. Demorei um instante a perceber, mas quando ouvi o gemido do meu pai, percebi que alguma coisa estava errada. O meu coração começou logo a bater descompassado, como se quisesse adivinhar o pior antes de o ver.

Levantei-me num ímpeto, quase tropeçando nos lençóis, e corri ao encontro da minha mãe. Ela tentava manter a calma, mas os olhos, vermelhos e húmidos, denunciavam o medo. O meu pai contorcia-se no sofá, agarrado à cabeça, o suor a escorrer-lhe pela testa. Uma dor intensa consumia-lhe as forças, e eu não sabia o que fazer — era como se tivesse sido atirado para dentro de um pesadelo sem aviso.

Sem tempo para hesitações, saímos apressados. Ainda nem tinha clareado bem a manhã quando nos metemos na ambulância. O barulho da sirene cortava a vila, e eu, sentado num banco frio, sentia-me pequeno, insignificante, esmagado pelo peso daquela corrida contra o tempo.

Nunca tinha estado numa situação assim. Na noite anterior, o meu coração galopava por amor; agora, batia em sobressaltos de medo. É estranho como em tão pouco tempo tudo pode mudar.

No hospital, os enfermeiros levaram-no de imediato para uma sala de observação. Vi-o perder as forças diante dos meus olhos, a cabeça pendendo para o lado, o rosto a empalidecer como se a vida se apagasse devagar. Senti um nó na garganta, um aperto que quase me sufocava. Por um instante, temi que fosse a última vez que o via. Mas deram-lhe oxigénio e medicação e, pouco depois, ele abriu de novo os olhos, como se tivesse regressado de um sítio distante.

Duas injecções depois, voltamos para casa. Tudo parecia ter acabado, mas dentro de mim algo tinha mudado. Pela primeira vez vi o meu pai frágil, vencido pela doença, e isso deixou uma marca. O herói que eu julgava indestrutível mostrava-se humano, vulnerável, e essa imagem ficou gravada em mim como uma fotografia que nunca mais se apaga.

O resto do dia correu lento, pesado. A televisão falava apenas da contagem dos votos, do futuro do país que se reinventava diante de todos. Mas, para mim, a revolução era outra: um turbilhão íntimo, feito de medos, recordações e interrogações que não consegui afastar.

À tarde, o Benjamim apareceu, fiel ao combinado. Fomos até ao nosso ponto de encontro, aquele recanto que parecia só nosso, e ali ficamos a conversar de tudo e de nada. Era bom distrair-me, deixar que o tempo passasse sem pensar demasiado. Mais tarde vimos um jogo na televisão. O futebol, como sempre, a preencher o vazio das horas, a dar uma normalidade que eu precisava desesperadamente de agarrar.

Mas, no fundo, havia uma ideia fixa: marcar encontro com a Dila. O pensamento dela não me largava, era como um disco riscado a repetir-se na cabeça. Só que naquele dia era impossível. Ainda assim, à noite, mantive o ritual de ir até à rua dela, nem que fosse para sentir a emoção de estar perto, de alimentar a ilusão de que, por acaso, os nossos caminhos se cruzariam.

O inesperado, porém, veio do céu. Uma tempestade rebentou do nada, com rajadas de vento e chuva que batiam nas vidraças como se quisessem partir o mundo. Fiquei preso em casa, impotente e frustrado, a sentir que a noite me roubava um momento que podia ter sido único.

Então rendi-me à imaginação. Na minha mente, via a casa dela como se lá estivesse. O pai — um homem sereno, de voz grave, de quem parecia emanar respeito e segurança. A mãe — doce, protectora, com um carinho que eu invejava. E via-a a ela. A Dila. Bela de uma maneira que não se dizia em palavras, porque o que ela tinha era mais do que beleza: era presença. Enchia o espaço, fazia calar os outros só por entrar. Uma rapariga que não era apenas uma rapariga: era uma revolução dentro de qualquer rapaz que a olhasse.

E eu, com os meus quinze anos e a minha pressa de crescer, queria decifrar esse enigma. Tentava compreender os seus gestos, os olhares, até os silêncios. O que havia entre nós não era simples amizade — disso eu tinha a certeza. Era algo mais fundo, invisível, como raízes que se entrelaçam debaixo da terra. Nada, nem mesmo uma tempestade, poderia cortar esse laço.

Fechei o diário tarde, o corpo cansado mas a mente desperta. Lá fora, o vento corria entre as árvores como quem sussurra segredos, e a lua, alta e solitária, parecia observar-me com o seu olhar frio de testemunha eterna.

Adormeci com uma certeza que me pesava e ao mesmo tempo me guiava: o mundo estava a mudar, o país estava a mudar, mas o que mais me assustava era perceber que eu próprio também estava a mudar.