O Peso das Sombras e o Sopro da Liberdade
Sexta-feira, 25 de Abril de 1975
Levantei-me com a cabeça ainda presa às sombras da véspera, como se a noite tivesse ficado colada ao corpo. Mas, logo pela manhã, a rua agitava-se como nunca. Da varanda, vi vizinhos a falar mais alto que o costume, passos apressados no empedrado, e bandeirinhas improvisadas a aparecerem nas mãos de alguns miúdos. Aquele dia não era um dia qualquer. Pela primeira vez, os meus pais iam votar. Votar, imagina-se bem, depois de uma vida inteira em que isso não passava de palavra proibida, dita em surdina. Quando os vi saírem de casa, de roupa engomada e expressão firme, tive a impressão de que carregavam não só o poder, mas o peso de todos os silêncios guardados. A democracia estava a ganhar raízes mesmo ali, diante dos meus olhos, e eu, ainda sem poder votar, sentia-me parte de tudo — como se fosse também meu aquele começo.
Depois do almoço, encontrei-me com o Benjamim. O calor caía a direito, sem piedade, e refugiamo-nos debaixo de uma árvore de densos ramos, que parecia ter o segredo de um mundo mais fresco. Ficamos ali a conversar de tudo e de nada, deixando que as horas se arrastassem, embaladas por uma brisa morna que pouco refrescava mas que parecia segredar que o tempo corria devagar, só para nós. Quando o estômago começou a reclamar, voltei a casa, lanchei à pressa e ajudei o Benjamim a dar de comer ao cavalo, antes de pegar na bicicleta.
Foi então, ao passar diante da casa da Dila, que reparei neles: três figuras à porta, imóveis como estátuas — os pais dela e a própria Dila. O olhar dos pais, severo, fez-me gelar. Nunca me tinham visto com bons olhos, mas aquele silêncio duro parecia carregar algo mais. Apertei o guiador e segui caminho, o coração apertado. Mais tarde, contei ao Benjamim o que vira. Ele, sempre engenhocas, foi buscar um binóculo. Tentamos observar melhor de longe, mas só conseguíamos ver sombras. Mudei de posição, procurei ângulos, esperei quase uma hora… nada. A ausência dela era um vazio que me inquietava.
À noite, decidimos voltar. Levamos os tele-comunicadores — o nosso brinquedo preferido, que nos fazia sentir espiões — e o binóculo. Instalamo-nos numa pequena clareira de onde víamos parte da janela do quarto dela. Foi aí que a vi. Um vulto mexeu-se. O coração disparou. Era ela. Tão perto e, ao mesmo tempo, inalcançável. A figura sumiu depressa, substituída pela mãe. E o meu peito afundou.
Não quis desistir. Contornamos a casa. O Benjamim avançou na frente, eu fiquei mais atrás, escondido. De repente, ouvi uma voz a sussurrar o meu nome:
— António! Sou eu, a Dila!
Arrefeci todo por dentro. Procurei a origem daquela chamada.
— Dila? Onde estás? Estás bem? — atirei, a medo, tentando não me trair pela ansiedade.
Da penumbra, surgiu ela, acompanhada da irmã. O rosto sereno, mas nos olhos havia uma nuvem.
— Estou aqui, António. Estou bem, não te preocupes assim…
Aproximei-me devagar, com as palavras a tropeçarem-me na boca.
— Ontem… juro que ouvi gritos. Pensei… pensei que os teus pais te tinham batido. Passei a noite em claro.
Ela baixou os olhos e falou num tom quase de desculpa:
— Houve discussão, sim. Estão zangados comigo. Mas não passou disso.
Suspirei, como quem larga um peso que carregou horas demais. Ainda assim, o nó dentro de mim não se desfazia por completo.
— Eu só quero que estejas bem. Se precisares de mim… eu estou aqui. Sempre.
O sorriso dela, pequeno mas verdadeiro, dissipou todas as dúvidas.
— António, só o facto de te importares tanto já é muito para mim.
Corri as mãos nervosamente pela bicicleta, sem saber onde pousar os olhos.
— Às vezes sinto que não faço o suficiente para te proteger.
Ela estendeu a mão, pousou-a no meu braço. Foi como se tivesse parado o mundo.
— Fazes mais do que imaginas. Só o facto de estares aqui significa muito.
Fiquei sem voz. Quis beijá-la. Quis avançar. Mas não. Não ali, não sob aquele peso de olhos alheios e paredes demasiado próximas. Guardei o impulso no coração, onde o desejo fervia. Antes de nos separarmos, combinamos ver-nos no dia seguinte. E quando ela se afastou, leve como uma sombra, senti dentro de mim um cavalo a galope, um coração sem travão. O que eu sentia por Dila não era só paixão. Era uma força bruta, um mar inteiro a puxar-me.
Regressei a casa num estado estranho — leve e pesado ao mesmo tempo. Queria acelerar o tempo, fazê-lo correr até amanhã. No quarto, na penumbra, deixei que o corpo cedesse ao cansaço. Mas a mente… a mente ficou acordada.
E pensei: se hoje os adultos carregaram nas mãos o peso da liberdade, eu carrego no peito o peso do amor. Talvez seja isso crescer: perceber que a vida é sempre um acto de coragem — seja diante da urna, seja diante de quem se ama.