Quando o Mundo se Move e Eu Também

Quinta-feira, 24 de Abril de 1975

Acordei tarde, como se o corpo tivesse decidido resistir ao regresso à realidade. O sono parecia querer prolongar-se, como um cobertor que não queremos largar. Mas bastou abrir os olhos para que o vazio regressasse, silencioso, sem pedir licença. Levantei-me devagar, num arrastar de gestos sem vontade, e deixei o dia correr no mesmo torpor baço que se cola à pele como poeira.

À tarde, na quinta do Benjamim, a monotonia que me embrulhava quebrou-se. Estávamos a dar de comer ao cavalo, quando a Dila surgiu à porta do estábulo, como quem espreita sem ser esperada. O sol entrava oblíquo, e nos seus cabelos desenhava reflexos dourados, quase como fios de cobre a incendiar-se. Fiquei ali, a olhar, como se de repente o mundo inteiro tivesse ganho cor. O nó que me apertava o peito desatou-se num instante. Ela sorriu. E só isso bastou para que tudo parecesse menos pesado.

Rimos, falámos, e marcámos um encontro para as três. Parecia simples. Mas a vida raramente é simples. Esperei, esperei… e nada. Quando finalmente a vi, vinha com o rosto fechado, os olhos como lâminas que não sei se me cortavam ou me evitavam.

— Dila… o que aconteceu? — arrisquei, sem perceber o que me esperava.
— Eu devia perguntar-te isso a ti — respondeu, não zangada, mas ferida.
— Esperei-te às três… como combinámos…
— Pois… mas eu estive lá mais cedo. Cheguei às duas e meia. Esperei, esperei… até achar que tinhas mudado de ideias.
— Dila, houve um engano. Só isso! Nunca faria uma coisa dessas.

Ela suspirou. Os dedos perderam-se no cabelo como se procurassem ordem onde só havia desarrumo.
— Talvez tenha sido mesmo um mal-entendido… mas senti-me tão tola, António. Tola por estar ali sozinha, à espera.
— Nunca serias tola. Muito menos para mim.

O olhar dela suavizou-se, como se uma porta se entreabrisse. Sugeri novo encontro, e dessa vez apareceu — mas trouxe a irmã consigo, como escudo ou como companhia que disfarça. Estávamos a conversar, a tentar colar os cacos que já não encaixavam bem, quando a mãe dela surgiu. O olhar que me lançou foi uma condenação muda. Senti-me culpado sem sequer saber de quê.

À noite, o coração pregou-me partidas. Ao passar perto da sua casa, julguei ouvir gritos. O peito apertou-se de tal forma que quase não respirei. Corri, ofegante, mas não havia nada — só o silêncio da noite, cúmplice das minhas próprias fantasias. Ainda assim, a inquietação ficou a moer.

Mais tarde, voltei com o Benjamim. Do quintal, ouvi a sua voz tranquila, e senti alívio, mas não descanso. Porque dentro de mim continua a martelar a dúvida: estarei eu a complicar-lhe a vida? Estarei eu a ser mais problema do que alegria?

Agora escrevo, com a chuva a bater no vidro como dedos impacientes. Cada gota mistura-se com o peso que trago no peito. Tudo o que sinto por ela é real, absoluto, avassalador. Dila é mais do que um nome — é o fio que segura o meu mundo, mesmo quando esse fio ameaça partir-se.

Fecho os olhos e deixo-me embalar pelo rumor da água nos telhados. O sono vem, inquieto, cheio de imagens partidas: vejo-a a sorrir, vejo-a a desaparecer, sinto-me a perdê-la e a reencontrá-la no mesmo instante.

E, ao acordar, a manhã já espreita pelas frestas da janela. Mas não é uma manhã igual às outras. O ar traz um murmúrio distante, como se a própria cidade tivesse despertado de um longo torpor. Há movimento nas ruas, um rebuliço que cresce. Algo mudou. Algo vai mudar. E eu sinto-me pequeno diante disso, mas também parte de um tempo que começa agora.

Talvez seja este o destino: amar alguém no meio de um mundo que treme, aprender que até o coração de um rapaz de quinze anos pode estar ligado ao pulsar da História.