As Horas em Suspenso

Quarta-feira, 23 de Abril de 1975

O dia seguinte chegou sem pedir licença, como um intruso que entra porta adentro sem bater. Arrastou-me para uma realidade diferente, fria e áspera, onde as cores de ontem pareciam já desbotadas. Acordei com o peito apertado, um peso invisível a empurrar-me para baixo. O que era felicidade ontem parecia-me hoje uma miragem longínqua, um sonho de madrugada que se dissolve com a luz. Às vezes penso que não pedi para nascer. A angústia, essa sombra teimosa, consome-me. Tudo o que faço é com as melhores intenções, mas o mundo tem um talento estranho para torcer os meus gestos, como se as minhas palavras saíssem sempre do avesso.

De manhã, o Manel chamou-me à pressa. Tinha uma notícia que me abanou por dentro: o pai da Dila proibira-o de se aproximar da casa dela, alertado pelo próprio pai dela. Essa reprovação bateu-me como um murro no estômago. Sei que os pais querem proteger os filhos, mas eu não sou uma ameaça. Nunca tive intenção de lhe causar mal, nem física nem emocionalmente. Pelo contrário, só quero o seu bem — e esse querer, tão puro, parece ser visto como um perigo.

Fui para perto de casa dela, decidido a dizer-lhe que, para evitar problemas, só a veria aos domingos — se possível. O caminho até lá parecia mais comprido do que nunca. As árvores inclinavam-se ao vento, como se sussurrassem segredos que não me queriam contar. A casa estava silenciosa, fechada no seu próprio mundo. Dila surgiu à porta, surpresa ao ver-me ali, os olhos inquietos. Saiu sorrateiramente e veio ao meu encontro.

— O que fazes aqui, António? O meu pai… — a hesitação na sua voz denunciava o que eu já sabia.

— Eu sei. Foi por isso que vim. Precisamos de falar.

Ela baixou os olhos, como quem procura no chão a coragem para dizer o que pesa.

— Ele proibiu-te, não foi?

— Disse ao Manel que eu não devia aproximar-me. Não quero trazer-te problemas, Dila.

Ela levantou o olhar e vi-o brilhar de emoção, como uma lâmina de água ao sol.

— E achas que é isso que me preocupa? Eu não me importo!

Suspirei, sentindo o peso da decisão que me esmagava.

— Mas eu importo-me. Não quero que sofras por minha causa. Não quero que discutas com o teu pai por minha culpa.

— E então qual é a solução? — a voz dela tremeu, um misto de incredulidade e dor. — Fingimos que não existimos? Só nos vemos aos domingos, como se fôssemos desconhecidos?

— É melhor assim… Até ele acalmar, até eu encontrar uma maneira de falar com ele.

Ela abanou a cabeça, indignada.

— Melhor para quem, António? Para mim, não é.

— Para ti, para mim… para nós. Pelo menos, se nos virmos aos domingos, talvez ele não te pressione tanto.

Dila mordeu o lábio, tentando segurar as lágrimas.

— Isso não é viver. Isso não é…

Baixei a cabeça, apercebendo-me da ausência da palavra “amor” no meio das nossas frases. Doía não a dizer, mas doía mais ainda sentir que talvez não a pudesse cumprir. Senti-me impotente.

— Não sei o que mais posso fazer…

Ela tocou-me no braço, num gesto quase suplicante, como quem tenta segurar um pássaro prestes a fugir.

— António, eu prefiro enfrentar tudo do que afastar-me de ti.

Fechei os olhos por um instante, o coração apertado.

— Eu queria poder prometer-te que tudo vai ficar bem.

— Então promete-me que não vais desistir.

Encarei-a, a tentar prender aquele momento na memória, como se o futuro fosse um terreno de areia movediça.

— Nunca desistiria de ti.

Por um instante, o mundo deixou de existir. Ficamos ali, suspensos, como duas sombras que ainda se tocam antes de se afastarem. Mas ambos sabíamos que aquela despedida pesava mais do que qualquer palavra dita. O olhar dela ficou no ar, como se ainda estivesse ali mesmo depois de se afastar. O perfume do seu cabelo, o toque breve no meu braço, a entoação delicada da última frase — tudo persistia, insuportavelmente vivo.

Quando se foi embora, um vazio imenso tomou conta de mim. Fiquei ali, estático, a escutar os meus próprios pensamentos a ecoarem pelo silêncio. A noite caiu devagar, trazendo consigo o peso de tudo o que não foi dito.

Agora, ao escrever estas palavras, sinto um nó na garganta. Penso no que é crescer: esta mistura de esperança e perda, de querer o impossível e de aceitar o que nos tiram. Talvez ser adolescente seja isto — aprender que até as coisas mais puras podem ser proibidas. Mas no meio desta escuridão, percebo que há algo que ninguém me pode tirar: a verdade do que sinto. Hoje, mais do que nunca, o mundo pesa-me demais, mas também me obriga a descobrir que dentro de mim há uma força que eu ainda não sei usar. Talvez seja essa a lição secreta dos quinze anos.