O dia que não quis acabar
Terça-feira, 22 de Abril de 1975
O sol já se insinuava pelas encostas do vale cavado de S. Pedro da Cova quando abri a porta de casa. Havia na manhã um brilho tímido, quase preguiçoso, mas suficiente para acordar a vila. O ar fresco trouxe-me de súbito o cheiro do pão a cozer nas padarias próximas, misturado com a fumaça das chaminés que ainda resistiam ao calor da Primavera. Fechei os olhos um instante, como quem escuta o coração da terra a bater, e fiquei ali, parado, a sentir que o dia tinha qualquer coisa de diferente. Ouço o motor dos primeiros carros, passos apressados, vozes curtas — e por baixo de tudo, uma vibração secreta, como se a própria rua estivesse à espera de algo. Não sabia o quê, mas pressenti que não seria apenas mais uma segunda-feira de escola.
Quando cheguei ao portão do liceu, ouço a notícia espalhada em meia dúzia de gargantas: não haveria aulas. Ri sozinho. Um presente inesperado, como se o destino me tivesse dado um intervalo só para mim. Mas o que fazer com tantas horas livres? A pergunta vinha e voltava, enquanto caminhava até à paragem do autocarro.
E então, como se a manhã tivesse guardado a resposta para me surpreender, vi-a. A Dila.
Estava ali, de pé, distraída, como se o mundo fosse uma coisa que não lhe pesava nos ombros. Tinha aquele jeito impossível de ser: meio ausente, meio desafiante, como se brincasse com a gravidade só para me pôr à prova. Três vezes os meus olhos a procuraram ansiosos, e três vezes o coração tropeçou dentro do peito. Que feitiço era aquele? Havia nela uma centelha que não cabia em palavras.
No autocarro, sentei-me atrás dela, fingindo não a ter visto, mas incapaz de desviar o olhar. Pensei: “Se me virar agora, descubro qualquer coisa que não sei nomear.” E não me enganei — cada gesto dela era como uma porta aberta para um lugar onde nunca tinha estado.
Desci primeiro, esperei, e quando a vi aproximar-se, arrisquei:
— Então, Dila, também tiveste uma surpresa com este dia sem aulas?
Ela riu. E aquele riso foi como se o mundo tivesse ficado leve.
— Não esperava encontrar-te aqui — disse, com brilho nos olhos. — Mas é uma boa surpresa.
Falámos. Simples. Natural. Como se já nos conhecêssemos desde sempre. Não havia truques, nem máscaras. Com ela, tudo parecia sereno, como se o tempo tivesse abrandado só para nos ouvir.
Antes de nos separarmos, arranjei coragem:
— Encontramo-nos mais tarde?
Ela hesitou um segundo — tempo suficiente para me deixar a tremer na perspectiva de um não — e acenou afirmativamente. Nesse instante, o meu coração saltou do peito como um pardal que descobre a porta aberta da gaiola.
Em casa, juntei-me ao Manel e ao Benjamim que já se encontravam à minha porta. Tentamos jogar às cartas, mas a minha cabeça estava noutro lugar. O Manel, sempre atento, atirou:
— Estás noutra hoje...
Encolhi os ombros, como se fosse nada. Mas era tudo.
As horas arrastaram-se, e quando o sol começou a descer, a ansiedade deu lugar à dúvida. O tempo passava e a Dila não aparecia. O riso inicial transformou-se em silêncio dentro de mim. O Benjamim foi o primeiro a desistir; depois o Manel. Fiquei sozinho, mas não fui logo para casa. Dei uma volta perto da rua dela. Parecia um tolo à procura de algo que talvez não viesse.
E quando já ia a desistir, vi-a.
A caminhar ao fundo, leve, como se viesse de um sonho.
— Dila! — gritei sem pensar.
Ela voltou-se e sorriu.
— Olá! Não pensei que ainda estivesses por aqui.
Tentei disfarçar o alívio, mas a voz tremeu:
— Estava só de passagem… mas ainda bem que te encontrei.
Ficamos a conversar, sem darmos conta do tempo. Rimos, contamos histórias, deixamo-nos levar por silêncios que não pesavam. Cada minuto confirmava o que já sabia: estar com ela era como respirar ar novo, como descobrir uma música que ninguém mais tinha ouvido.
Num rasgo de coragem, disse:
— Hoje foi um dia cheio de surpresas... mas a melhor foi encontrar-te.
Ela baixou os olhos, sorriu, e respondeu baixinho:
— Para mim também.
Despediu-se e vi-a afastar-se, com o vento a brincar-lhe no cabelo. Esperei que se voltasse, só uma vez, mas não aconteceu. Seguiu o seu caminho, deixando atrás de si a leveza de um perfume e a ausência de um último olhar.
Agora, sentado à mesa, escrevo estas linhas enquanto a noite cai. Pergunto-me se a vida não será feita destes momentos: encontros que nos roubam o fôlego e despedidas que nos deixam suspensos no ar. Hoje percebi que há dias que não acabam quando a lua aparece. Ficam dentro de nós, a repetir-se como um eco, até que o coração se canse.
E talvez seja isso crescer: aprender que a esperança é um fogo que arde mesmo quando não sabemos se alguém o voltará a acender.