Bruma e Memórias
Segunda-feira, 21 de Abril de 1975
A manhã chegou envolta numa bruma fina, desfiando os últimos vestígios da noite, como se o céu tivesse decidido não se apressar em nascer. No quarto, a penumbra persistia, quebrada apenas pelos primeiros tons pálidos da luz que se infiltravam pelas frestas da janela, tímidos, hesitantes. Demorei-me a levantar, enrolado nas mantas, a prolongar aquele instante em que o mundo ainda parecia só meu.
Lá fora, o ar fresco cheirava a terra molhada e a folhas trémulas, com o sopro doce e húmido de promessas que não se podia decifrar. Vesti-me com movimentos automáticos, como se os meus braços e pernas soubessem o caminho melhor que a minha cabeça. Mas a mente não descansava — vagueava, tropeçando em memórias dispersas: um olhar que me ficou preso, risos que ecoavam no corredor da escola, palavras que já se tinham transformado em sombras.
As ruas ainda meio adormecidas ressoavam com o meu passo apressado. Havia um certo mistério na cidade naquele horário, um silêncio que parecia guardar segredos, que só quem caminha sozinho sente. Dentro de mim, no entanto, nada despertava por completo. Era um limbo entre ontem e amanhã, entre o que fui e o que ainda não sei ser.
O liceu ergue-se velho e imponente, com paredes altas e janelas austeras, como se cada tijolo carregasse histórias que eu nunca conseguiria decifrar. A manhã passou arrastando-se. O exercício saiu-me ao lado. Tinha-me preparado, estudado cada linha, mas quando a caneta tocou no papel, as respostas fugiram-me pelos dedos, como areia. Desleixo? Nervos? Ou apenas a sorte decidira pregar-me uma partida? A última aula foi cancelada, um sopro de liberdade inesperado, e senti um pequeno triunfo a aquecer-me o peito.
Caminhei de regresso a casa sem pressa. O sol, tímido mas constante, aquecia-me o rosto; o vento leve brincava com o cabelo e parecia rir das minhas preocupações. As ruas estavam silenciosas, salpicadas de figuras isoladas, entregues às rotinas de domingo. Em casa, atirei a pasta para um canto e sem pensar muito agarrei na bola. O largo em frente à casa tornou-se meu universo. Chutei, corri, ensaiei passes e remates, sozinho, até que a companhia dos amigos chegou. Jogamos, discutimos, rimos alto, inventando campeonatos que ninguém iria recordar, mas que naquele instante eram eternos. Um a um foram-se despedindo, e o largo ficou silencioso, vazio, quase a suspirar com o fim da brincadeira.
O jantar trouxe o costumeiro conforto morno. A televisão ocupava o serão com imagens e sons que preenchiam o tempo sem grande entusiasmo, mas não importava. As horas arrastaram-se, e o peso do dia empurrou-me para a cama. No quarto, o silêncio era cúmplice, apenas quebrado pelo ranger da madeira sob os meus movimentos. Deitei-me, olhos abertos, observando a fraca luminosidade da rua que se infiltrava pela janela, e senti o cansaço fundir-se com uma ansiedade vaga. Talvez amanhã algo diferente acontecesse. Talvez não. Mas aquela expectativa silenciosa tinha um sabor doce, quase como se a vida, com todas as suas incertezas, ainda pudesse surpreender-me.
E pensei, antes de fechar os olhos: há dias que parecem comuns, mas cada instante carrega um fio invisível que nos liga ao futuro. Os sorrisos que damos, os erros que cometemos, até as pequenas vitórias inesperadas, tudo se entrelaça num desenho que só a memória consegue completar. É assim que se cresce — entre a bruma de ontem e a luz incerta de amanhã.