Entre o Vazio e a Esperança

Domingo, 20 de Abril de 1975

Depois de um sono recheado de sonhos de fantasia, acordei ainda embevecido pelas sensações que a noite me trouxera. A casa parecia-me maior hoje. O silêncio espalhava-se pelos corredores, instalando-se nos cantos como uma sombra invisível, fria mas familiar. A ausência dos meus pais tornava cada divisão estranhamente vasta, como se as paredes tivessem esticado durante a noite e os móveis se tivessem tornado pequenos diante do meu próprio vazio.

Tinham saído cedo para um passeio e insistiram para que fosse também. Mas declinei. Precisava deste tempo para mim. Ou talvez para nós — para a Dila e para este miúdo que ainda não sabia viver sem uma expectativa que lhe queimava o peito.

Tinha um encontro marcado com a Dila e, por mais que uma parte de mim suspeitasse que talvez fosse em vão, não quis faltar. Algo em mim ainda acreditava que ela viria. Uma fé silenciosa, quase ingénua, mas tão intensa que me fazia esquecer todas as razões para duvidar. Vesti-me devagar, com cuidado, tentando que a minha ansiedade não se notasse no aperto da camisa ou no descompasso dos meus sapatos. Lá fora, o dia estendia-se numa luz morna, amarelada, como se também ele esperasse, com paciência, por algo que ainda não tinha acontecido.

À tarde, os meus colegas apareceram em casa, ruidosos e alegres, trazendo consigo o cheiro do pó das ruas e do pão acabado de cozer. Seguimos juntos para o ponto de encontro, a conversa ensaiada a tentar cobrir o nervoso miudinho que me corria nas veias. Cinco horas. O tempo arrastava-se. Ouvíamos os sons dispersos da vila num domingo morno — o ronronar distante de uma motorizada, o chilrear hesitante dos pássaros, e o entardecer preguiçoso que se estendia sobre nós, quase tangível, como se quisesse envolver-nos na sua espera silenciosa.

Seis horas. Sete horas. Cada minuto era uma pequena batalha entre a esperança que teimava em permanecer e a certeza que lentamente se infiltrava no meu peito: talvez ela não viesse. O coração insistia em esperar; a razão preparava, paciente, o terreno para a resignação.

Às oito horas, já não restavam dúvidas. A tristeza instalou-se como hóspede indesejado, mas teimoso, recusei-me a aceitar o fim sem uma explicação. A inquietação era mais forte do que a resignação, e decidi procurá-la. Caminhei devagar até à casa dela, sentindo cada pedra do caminho sob os meus sapatos, cada sombra de árvore a espreitar como se tivesse consciência do meu nervosismo. Olhei disfarçadamente para o quintal e lá estava ela.

Acompanhada do pai, sentada ao lado dele, parecendo distante, como se o pensamento estivesse noutro lugar, noutro tempo, numa realidade inacessível. Nesse instante, tudo fez sentido. Não tinha faltado por escolha própria. Não me esquecera. Apenas não pudera vir.

Senti um aperto no peito, uma mistura estranha de alívio e tristeza. O alívio de saber que não me evitara de forma deliberada; a tristeza de perceber que, de alguma maneira, nada daquilo mudava a distância entre nós. O resultado era o mesmo: eu ali, sozinho, e ela inacessível, separada por algo maior do que um simples desencontro.

O caminho de regresso foi pesado. Culpava-me sem razão aparente — culpava-me por esperar demasiado, por não ter percebido antes, por sentir esta necessidade absurda de que tudo corresse como eu desejava. Culpava-me por continuar a gostar dela, mesmo quando parecia que o mundo inteiro conspirava contra isso.

À noite, incapaz de suportar o vazio, fui ao cinema. Mas não me lembro do filme. Sei apenas que, no escuro da sala, entre rostos alheios e diálogos distantes, continuei perdido nos meus próprios pensamentos. O brilho intermitente do ecrã desenhava sombras fugidias nos rostos em redor, mas nenhuma me pertencia. Nem mesmo a minha.

No final, saí para a rua sem saber bem o que tinha visto. A cidade, com as suas luzes amareladas e o murmúrio longínquo dos carros, parecia-me indiferente. Eu próprio era um vulto a caminhar sem rumo definido, carregando um amontoado de sentimentos confusos: vergonha, culpa, e uma tristeza surda que se instalara como se não tivesse pressa de me deixar.

A noite desenrolou-se lenta. Adormeci tarde, ouvindo o ruído abafado da chuva a bater nos vidros, como um eco das inquietações que me pesavam no peito. E, nesse instante, percebi que talvez a vida seja mesmo isto: uma mistura de espera e desencontros, de certezas que se desfazem e esperanças que teimam em sobreviver, mesmo quando o mundo nos diz para desistir. Talvez a magia esteja justamente em continuar a acreditar, mesmo quando ninguém mais acredita connosco.