Espera e Suspiros
Sábado, 19 de Abril de 1975
A luz da manhã entrou pelo quarto antes de eu estar pronto para a receber, espalhando-se como um pano quente sobre a mobília. Espreguicei-me devagar, sentindo ainda nos ossos o peso das ideias que a noite anterior tinha deixado.
Pensamentos que não pediram licença, que se instalaram no meu sono, fazendo-me recordar conversas, silêncios e pequenos momentos que já não sei se eram reais ou desejos. Mas não houve tempo para me perder demasiado neles. O Manel e o Benjamim apareceram logo cedo, agitados como se trouxessem nas mãos o segredo do mundo. Vieram avisar-me que sairiam mais cedo para o liceu. Não estranhei, mas também não perguntei porquê; segui a corrente da manhã, aceitei a pressa, comi qualquer coisa à pressa e acompanhei o Manel – o Benjamim acabou por não conseguir vir.
Só durante a viagem percebi a razão real daquela antecipação. O Manel, com um ar de conspirador antigo, encostou-se a mim e murmurou:
— Sabes bem porque é que saímos mais cedo, não sabes?
— Não faço ideia — respondi, embora o meu coração já suspeitasse.
— Ora, então! Para vermos a Dila! — disse ele, piscando-me o olho, como se a revelação fosse uma travessura proibida.
Sorri, meio envergonhado, mas sem negar. Havia algo no jeito do Manel, naquela mistura de cumplicidade e segredo, que fazia a ansiedade dançar dentro de mim.
Quando chegamos à paragem, deparamo-nos com um mar de alunas do liceu vizinho, todas à espera do transporte. Havia um burburinho constante de vozes femininas, risos que surgiam e desapareciam como ondas, e eu senti o coração acelerar, bater com pressa de jovem. Se a Dila estivesse ali, talvez trocássemos algumas palavras antes das aulas, e a simples ideia fazia-me sorrir sem motivo.
— Vamos dar a volta por trás, pode ser que a vejamos melhor — sugeri, quase como se falasse para mim mesmo.
Passamos discretamente pela retaguarda do grupo, os olhos atentos, percorrendo cada rosto à procura do dela. Na primeira passagem, nada. Mas na segunda, lá estava: encostada a um poste, conversando animadamente com uma colega, esquecida do mundo como quem não percebe que alguém a observa. Criei coragem e fiz-lhe um discreto sinal com a mão. Ela notou-me, ergueu uma sobrancelha curiosa e, sem interromper a conversa, indicou-me que esperasse. Assim fiz. O Manel ficou ao meu lado, atento, mas respeitando o silêncio da situação.
Quando a colega dela se afastou, a Dila aproximou-se, cruzando os braços como se quisesse medir a minha coragem.
— Então, António? O que é que queres?
A pergunta, embora simples, tinha uma ponta de frieza que me fez engolir em seco. Respirei fundo e tentei soar natural:
— Olha, só queria avisar-te que não posso ir a tua casa hoje… Tenho aulas o dia todo.
Ela suspirou, e eu percebi a frustração escondida por detrás do gesto. Encolheu os ombros, num gesto que misturava aceitação e resignação.
— Está bem… Nem sei se seria boa ideia de qualquer forma. Ontem já houve discussão lá em casa por minha causa.
— Outra vez? O que aconteceu? — perguntei, genuinamente interessado, curioso pelo mundo que parecia sempre um pouco mais complicado do que o meu.
Ela contou-me algumas das peripécias do dia anterior, sobretudo envolvendo a mãe, que parecia cada vez mais vigilante e desconfiada. Hoje, segundo a Dila, não esperava menos do que mais do mesmo, talvez até pior.
Antes que pudéssemos continuar a conversa, o troleicarro chegou, e ela despediu-se apressadamente.
— Bom, depois falamos! — disse, subindo para o veículo.
Vi-a desaparecer no meio da multidão, e fiquei ali parado, com um nó no peito e um sorriso tímido. A vida parecia girar à volta dela, e eu, impotente e encantado, não podia fazer nada senão observar.
O resto do dia passou sem grandes acontecimentos. As aulas seguiram o seu ritmo, embora um exercício me tivesse tirado mais paciência do que eu imaginava.
Quando cheguei a casa, os meus pais estavam na sala e perguntaram se queria sair com eles no domingo.
— Preferia ficar em casa sozinho — respondi sem hesitar.
Para minha surpresa, não houve protestos nem discussões. Pelo contrário, aceitaram a minha decisão como quem aceita as estações do ano. Talvez estivessem habituados à minha tendência para a solidão ou, simplesmente, começassem a compreender que os meus silêncios não eram rebeldia, mas a expressão de um mundo interior demasiado vasto para ser contado em palavras.
Recolhi-me cedo. A noite estendeu o seu manto sobre a casa, abafando os ruídos do dia, e deitei-me. O sono, porém, teimava em não chegar. Fiquei deitado, de olhos abertos, ouvindo o ranger discreto da madeira da cama sob o peso do tempo, e os ecos de pensamentos que não se calavam. O que estaria a Dila a fazer? Estaria a pensar em mim, como eu pensava nela?
Adormeci com a sua imagem nos olhos, o coração dividido entre esperança e incerteza, e a sensação de que cada pequeno gesto, cada olhar trocado, poderia mudar tudo. Percebi, naquela madrugada silenciosa, que a vida é feita de instantes que nos moldam, invisíveis e preciosos, e que esperar não é apenas passividade, mas uma maneira de sentir o mundo mais intensamente.
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