Entre Sombras e Sol

Sexta-feira, 18 de Abril de 1975

A manhã chegou devagar, como se estivesse a espreitar antes de se aventurar pela cidade. A luz entrava pela janela às fendas das persianas, desenhando riscas de sol no tecto e no chão de madeira, e eu ouvia o murmúrio distante da casa: o som do gato a saltar, o rangido da porta da cozinha, o rádio da vizinha a emitir um tango antigo. Espreguicei-me com preguiça, sentindo os músculos protestarem, e deixei que a memória do dia anterior ainda me envolvesse, doce e confusa, como um perfume que não se sabe de onde vem.

As aulas hoje foram poucas — só as primeiras três. Ao perceber que não havia nada a fazer nas duas últimas, combinei com o Benjamim irmos embora. O sol brilhava com aquela luz quente de Abril e o ar cheirava a terra molhada e a promessas escondidas. Sentia-me leve, quase a flutuar, como se o dia tivesse reservado uma surpresa para mim, dessas que não se pedem, apenas acontecem.

Fomos, como sempre, até casa da Dila. Quando chegamos ao Largo da Farmácia, o Benjamim afastou-se para visitar o tio. Fiquei ali, encostado com a pasta escolar a uma pedra do muro, observando o sol a deslizar sobre o chão, e então ouvi o meu nome. Um som que trouxe arrepio agradável: era a Dila. Aproximava-se com aquele sorriso que sempre me desarmava e os olhos a brilhar de uma forma que me fazia sentir exposto e vivo ao mesmo tempo. Caminhamos em silêncio até à clareira — o nosso pequeno mundo secreto — e só depois a conversa começou, leve e nervosa, com perguntas e respostas que sabíamos serem apenas pretextos para estarmos perto.

— Hoje saíste mais cedo? — perguntou, como se o assunto fosse banal, mas o sorriso traía-a.
— Sim, tive sorte — respondi. — E tu?
— Ajudava a minha irmã com a bicicleta — disse, mexendo num fio do cabelo, distraída, mas com aquele jeito que me deixava sem palavras.
— Já aprendeste? — tentei provocá-la.
Ela sorriu de lado, baixando os olhos, e o silêncio que se seguiu teve a densidade de mil palavras não ditas.

Na clareira, sentei-me num tronco e olhei para ela. O vento brincava com os seus cabelos, e por um instante quis tocar-lhe o rosto, sentir-lhe a pele quente, mas engoli a coragem. O nosso silêncio foi interrompido pelo olhar dela, fixo em algo a chegar. Era o Manel. O mesmo com quem tinha discutido dias antes. O seu olhar cruzou-se com o meu, mediu-me, e depois passou ao Benjamim, com quem começou a falar como se nada tivesse acontecido. Mais tarde, o jogo de cartas ocupou-nos, e eu escolhi a Dila como parceira sem pensar. Vencemos as duas partidas, trocando olhares cúmplices, risos e pequenas provocações. Cada sorriso seu deixava um eco no peito, algo que eu ainda não sabia nomear.

Depois, a irmã da Dila insistiu em tentar andar de bicicleta. Eu observava, e a Dila parecia relutante em juntar-se. Aproximei-me e perguntei, baixinho:

— Por que não sobes?
— Não sei… talvez por vergonha — murmurou.

Segurei-lhe o braço por impulso, sentindo a pele franzina e quente, e por um instante o mundo parou. Ela olhou-me com aquele brilho, e fiquei sem fôlego. Falamos de coisas leves, até que ela disse, quase num segredo:

— Partido Pessoal da Dila.

E eu percebi, com clareza esmagadora, que a amava. Um amor ainda sem nome, mas cheio de força. O coração batia descompassado, e tentei organizar as palavras que não existiam. Mas ela desviou-se e, com um suspiro, tentou a bicicleta de novo. Eu segui, segurando o selim, sentindo a proximidade dela de uma forma que me fazia desejar que aquele momento durasse para sempre. Alguns minutos depois, desistiu, e eu percebi que o dia dela não era só sobre bicicletas.

A tarde passou rápido. Os colegas começaram uma guerra de torrões de terra, a irmã da Dila ria e corria, e a Dila queria juntar-se, mas impedi. Pela primeira vez, senti-me responsável por proteger o riso dela, e o toque no braço ainda me ardia. Quando o sol começou a ceder à noite, acompanhamo-las até casa. A despedida foi silenciosa, um encontro de olhares que guardou tudo o que palavras não podiam dizer.

Depois do jantar, ajudei a minha irmã a conduzir com o meu cunhado o carro que este havia comprado. Quase nos espetamos num muro, e o medo fez-me rir e arrepiar ao mesmo tempo. Mais tarde, procurei o colega com quem tinha discutido e fizemos as pazes. Pequenas vitórias do dia, mas vitórias importantes.

Agora, no silêncio do meu quarto, a noite cheira a terra húmida. De olhos abertos, ouço o mundo respirar lá fora. E penso: há momentos que se revelam pequenos mas eternos, invisíveis aos outros, mas que moldam o nosso coração. Há dias que parecem banais, mas guardam em si a promessa de algo que ainda não sabemos nomear. Talvez seja amor. Talvez seja o início de um futuro que, mesmo incerto, me faz acreditar que vale a pena sentir, arriscar e esperar.