PPD (Partido Popular da Dila)

 Quinta-feira, 17 de Abril de 1975

A manhã arrastou-se sem pressa, como se o relógio tivesse decidido tirar férias e cada segundo se esticasse até se tornar quase palpável. O tempo parecia diluído, escorrendo-me entre os dedos sem deixar rasto de significado. Havia apenas duas aulas à espera, e o resto do dia prometia ser um vácuo silencioso, cheio de nada e de pequenos ruídos de fundo: passos apressados nos corredores, o rangido de carteiras, o lápis riscando papel.

No segundo tempo, fui com o Benjamim até àquela loja de peças para rádios e televisões. Ele procurava um componente que nem eu percebia, mas fiquei a observar os expositores com atenção dispersa: resistores alinhados como soldados em parada, tubos de rádio que pareciam cápsulas de mundos antigos, fios coloridos que serpenteavam como pequenas artérias de eletricidade. Senti uma pontada de tédio misturado com curiosidade, o tipo de curiosidade que não leva a lado nenhum, mas entretém enquanto o tempo escapa.

Como a última aula foi cancelada, decidimos regressar mais cedo. O caminho era o mesmo de sempre: ruas estreitas, muros com pichações de ontem, árvores sem grandes segredos. Mas num instante de desatenção ou de sorte, surgiu a ideia.

— E se passássemos pela casa da Dila? — sugeriu o Benjamim, casual, quase como quem atira uma pedra ao rio sem esperar ondas.

Hesitei um segundo, mas bastou a sua entonação despreocupada para que a hesitação se esvaísse.
— Vamos.

E, de repente, o percurso ganhou uma outra luz. A familiaridade das ruas transformou-se num cenário de expectativa, como se cada passo nos aproximasse de algo que podia, ou não, mudar tudo.

Chegamos à clareira do costume. Estava silenciosa, exceto pela irmã dela, que nos espiava de canto. Sentamo-nos num banco afastado, quase invisíveis, como se o mundo nos tivesse esquecido por alguns minutos. Não tardou até que a Dila surgisse, com aquele sorriso rasgado, olhos azuis que brilhavam de um jeito que não se explicava.

— Vocês aqui? — disse ela, cruzando os braços e inclinando a cabeça. — Que surpresa.

Falamos de tudo e de nada, os temas flutuando como folhas ao vento. E então, de repente, mudou de tom:

— Sabes, eu acho que tu pertences ao PPD — disse ela, com aquela confiança que parecia medir cada palavra antes de a lançar.

Franzi a testa, sentindo um arrepio estranho, quase uma mistura de choque e divertimento.

— O quê?! Eu? Ao PPD?

Na minha cabeça, passavam-se cenas de protestos e discursos enfadonhos, exatamente o que eu detestava. O pensamento bateu forte: “Isso é um insulto ou um elogio disfarçado?”

— Como é que chegaste a essa conclusão?

Ela sorriu, enigmática, e eu senti que qualquer explicação seria inútil.

— Não te vou dizer.

Fiquei a olhar para ela, tentando ler nas curvas daquele sorriso uma pista, uma chave para o mistério.

— Isso é algum jogo?

— Talvez… — respondeu, piscando-me o olho.

E ficou assim. Um enigma, uma faísca de riso e silêncio entre nós, como se o mundo tivesse parado só para nos observar. Talvez nunca fosse desvendar todos os mistérios da Dila, e talvez isso fosse exatamente o que tornava cada encontro tão intenso, tão carregado de significado.

Deitei-me tarde, e a noite parecia alongar-se só para mim, como se cada sombra se tivesse colocado em posição de vigia. O pensamento fixou-se nela: no brilho indecifrável dos olhos, na leveza com que me provocava sem esforço, na sensação de que cada palavra escondia outro mundo. Sorri sozinho, resignado e encantado, enquanto o coração, esse traquina, batia em compassos irregulares.

No silêncio, percebi que talvez não fosse importante decifrar todos os enigmas. A vida, ou pelo menos a minha vida naquela idade, era feita destes instantes fugazes, destas pequenas revelações que iluminam um dia comum. E, por estranho que pareça, é nesse inacabado, nesse mistério sem fim, que se encontra a verdadeira intensidade de viver.