Entre a Chuva e o Sol

Quarta-feira, 16 de Abril de 1975

De manhã, o peso da véspera ainda se fazia sentir. Cada músculo parecia arrastar-se atrás de mim, e a cabeça teimava em não desligar-se do cansaço que se agarrava aos olhos. A escola, com o seu barulho e vozes que se misturavam num rumor contínuo, pouco ajudou. Um exercício de inglês correu pior do que eu esperava; as palavras fugiam-me como se fossem pequenas aves indecisas, e noutra disciplina os problemas acumulavam-se, formando uma nuvem densa que parecia não querer dissipar-se. Farto de tudo, decidi fugir um pouco do mundo: vim para casa mais cedo, em busca de algum refúgio.

Assim que cheguei, mergulhei nos trabalhos de matemática, na esperança de que pelo menos um pedaço do meu dia pudesse ser produtivo. Contas e problemas foram surgindo sob o lápis, cada linha traçada com mais concentração do que entusiasmo. Mas a monotonia acabou abruptamente quando o Benjamim bateu à porta, com aquele sorriso matreiro que já conheço de cor.
— A Dila está ali à frente — disse, como se acabasse de me entregar um segredo precioso.

Larguei tudo e corri para fora. Do outro lado da rua, lá estava ela, a conversar com o Manel, justamente com quem me tinha zangado no dia anterior. Um ligeiro aperto no peito, uma pontada de ciúme e, ao mesmo tempo, a necessidade de não estragar aquele momento. Para não criar cena, sentei-me no cruzeiro em frente de casa, observando-os de longe.

Mal me viu, Dila despediu-se do Manel e atravessou a rua, vindo ter comigo.
— Que surpresa — disse, sorrindo com aquela facilidade que sempre me desconcerta. — Não estás de mau humor hoje?

Sorri de lado, um sorriso que queria ser mais largo do que realmente era.
— Na tua presença não tenho motivo nenhum para estar de mau humor, antes pelo contrário.

Ela riu-se, sentando-se ao meu lado. O sol começava a declinar, e a luz dourada pintava o cabelo dela com tons quentes que pareciam pequenos fios de sol. Conversámos sobre coisas triviais, nada que merecesse um registo no mundo adulto, mas que para mim tinha toda a importância: os planos para o fim de semana, pequenas frustrações da escola, risos sobre amigos em comum.

Depois, contei-lhe sobre uma prenda especial que queria dar-lhe.
— Mas ainda é surpresa — acrescentei, tentando manter o mistério.
— Oh, então ao menos diz-me o que é! — insistiu ela, curiosa, os olhos a brilhar com aquela impaciência encantadora.
— Está numa lição do nosso livro de Português.

Ela arqueou uma sobrancelha, desconfiada e divertida.
— Qual é a lição?
— Não te posso dizer, mas dou-te o número da página.

Passei-lhe o número, e ela sorriu satisfeita, mordendo ligeiramente o lábio como se fosse capaz de decifrar qualquer segredo só por força do olhar.

Não demorou muito para se despedir; a noite caía lentamente, tingindo o céu de azul profundo, quase negro, e o ar fresco parecia trazer consigo um perfume de liberdade e de segredos por contar. Fiquei a observá-la afastar-se, a silhueta a dissolver-se na penumbra, sentindo um misto de tristeza e alegria que me apertava o peito. Pelo menos, tinha combinado encontrá-la no domingo. Por agora, isso bastava-me.

Ainda permaneci alguns minutos ali, sentado, sem vontade de regressar imediatamente a casa. As vozes e os passos que ecoavam na rua pareciam um fundo musical para os meus pensamentos, e o vento soprava, frio e suave, abanando as folhas e o meu humor de maneira estranha, quase poética. Suspirei, enfiei as mãos nos bolsos e segui caminho.

Ao chegar a casa, percebi que o dia tinha sido uma lição subtil: mesmo quando tudo parece pesado e sem cor, há momentos que iluminam de repente o coração, mostrando que a vida se faz de pequenas surpresas e encontros inesperados. E, talvez, essa seja a verdadeira magia da nossa juventude — o perceber que cada dia, por mais comum que pareça, pode guardar dentro de si um instante que nos faz sentir inteiros.