O peso das horas
Terça-feira, 15 de Abril de 1975
Acordei atravessado, como se durante a noite tivesse dado um encontrão ao mundo inteiro. Mal me levantei, já parecia que o destino estava decidido a entornar o copo do meu dia. E não demorou muito: o Manel, com aquela mania de saber sempre mais do que os outros, começou logo a largar as suas certezas como quem lança pedras. E eu, que não tenho feitio de engolir em seco, deixei-me ir. Foi palavra atrás de palavra, até que a nossa amizade ficou como um vidro embaciado: não partido, mas sem se ver direito através dele.
A cabeça ficou-me a bater como um tambor descompassado. E o tempo só ajudava a carregar: o céu estava baixo, cinzento, a cuspir aquela chuva miudinha que entra pelos ossos e nos cola o frio à pele. Parecia que o próprio dia conspirava para me empurrar ainda mais para dentro de mim, para esse canto escuro onde só existe má disposição.
Na escola, nada me correu de feição. Dois professores faltaram e a manhã reduziu-se a três aulas mal engolidas. Normalmente, isto até era sorte grande — tempo para andar à solta, jogar à bola no recreio, correr pelas ruas como se fossem nossas. Mas hoje não. Hoje, até a liberdade me soube amarga, como pão duro que já não desce. Os minutos arrastavam-se, lentos, sem vontade, como formigas cansadas a tentar atravessar um deserto. E os colegas, que noutra altura são o barulho bom da vida, soavam distantes, quase estranhos, como se eu estivesse metido num aquário só meu, a ver tudo de fora.
Quando cheguei a casa, o peso das horas vinha colado a mim como um casaco molhado que não se despe. Olhei para os livros, mas as letras não queriam dizer nada. A música tocava no gira-discos, mas parecia oca, sem corpo, sem voz. Até os desenhos, que tantas vezes me salvam, saíam sem alma, rabiscos sem força. Nada tinha sabor, nada tinha luz.
Fiquei a matutar que talvez existam dias assim, amaldiçoados, em que parece que o mundo inteiro se combina para nos lixar a paciência: amigos que se zangam por ninharias, céu que não larga a chuva, horas que não querem passar. Mas, no fundo da noite, quando o barulho se cala e só sobra o eco de mim próprio, penso se não será tudo coisa que nasce cá dentro. Se calhar o dia não foi assim tão negro — se calhar fui eu que o vesti dessa cor.
E é então que a dúvida se transforma em pergunta: será que a vida nos dá estes dias tortos apenas para nos ensinar a dar mais valor aos dias claros? Talvez sim. Talvez seja essa a lição escondida nos tropeços. Amanhã hei-de encontrar o Manel, e talvez me chegue a coragem para lhe pedir desculpa, antes que a amizade se perca por um beco sem saída. Porque, se há coisa que aprendi hoje, é que até o sol precisa da noite para voltar a brilhar.